Estado vai suportar combate à gripe asiática

O medicamento que se tem revelado mais eficaz no combate à gripe das aves “pode vir a ser distribuído gratuitamente”, admitiu ontem ao CM o director-geral de Saúde, Francisco George.

Para já, vinte milhões de euros é quanto o Estado português vai desembolsar pela compra de 2,5 milhões de embalagens do oseltamivir, o princípio activo comercializado pela Roche, até aqui prescrito pelos médicos para o tratamento da gripe sazonal, sem comparticipação.

O porta-voz da Roche, João Pereira, esclarece que este anti-retrovírico só começará a voltar às farmácias portuguesas “a partir do final de Setembro, princípios de Outubro, pois tem havido uma grande procura por parte de muitos países, incluindo Portugal.” O que justifica a “ necessidade do aumento da produção.”

Vinte e sete países já encomendaram àquele laboratório a produção deste remédio, tendo os Estados Unidos açambarcado grandes quantidades “desde há largos meses, logo que foi avançado pelos cientistas a probabilidade de ocorrer uma epidemia à escala mundial.”

O CM sabe que nos últimos dias houve uma corrida às farmácias portuguesas para a compra deste medicamento, sob a forma de cápsulas. Resultado: as sobras do último surto de gripe esgotaram.

As embalagens terão sido adquiridas como forma de prevenção, apesar de ser um medicamento vendido mediante receita médica obrigatória, a um preço unitário de 25 euros. Não é comparticipado pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) e cada embalagem contém 10 cápsulas.

NÃO UMA VACINA

A pneumologista Maria João Gomes considerou “errado as pessoas tomarem o fármaco como forma de prevenção, porque tem um efeito no organismo de meia dúzia de dias e não se está perante uma situação de epidemia do vírus da gripe asiática.”

Sobre a forma como o remédio pode ser tomado, a Direcção-Geral de Saúde (DGS) está neste momento a estudar aspectos técnicos relacionados com indicação terapêutica deste medicamento no tratamento do vírus H5N1. Isso mesmo foi confirmado por Eduardo Mendes, da Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral. “Ainda não recebemos indicações técnicas sobre a prescrição do oseltamivir.”

Confrontado pelo CM o ministro da Tutela, Correia de Campos, afirmou que para acompanhar a situação foi criado uma “sala de operações para monitorizar os riscos, fazer comunicações, estudar a prevenção e terapêutica a seguir.”

NUM MINUTO

VACINA EM ESTUDO

Investigadores de vários países estão a trabalhar para descobrir uma vacina capaz de prevenir o contágio entre humanos do vírus da gripe das aves. Uma esperança está a ser desenvolvida nos Estados Unidos e na Europa. Entretanto, a Organização Mundial de Saúde adquiriu um “stock” do oseltamivir suficiente para tratar três milhões de pessoas.

MUDANÇA DE VÍRUS

A grande dificuldade que os investigadores têm em descobrir uma vacina eficaz tem a ver com a mutação que o vírus da gripe das aves sofre sempre que muda de hospedeiro. Por isso, as autoridades de saúde mundiais receiam que este vírus, que até agora apenas se transmite entre os animais, e destes para os seres humanos, possa passar a transmitir-se de homem para homem.

1º CASO SUSPEITO

O primeiro caso suspeito de infecção ocorreu anteontem, mas veio a não ser confirmado. Tratou-se de um cidadão indiano, de 51 anos, resgatado a um navio com pavilhão chinês que provinha da Indonésia, e que atracou ao largo de Cascais, com sintomas que incluíam febres altas e calafrios.

50 VÍTIMAS

A morte de uma criança de 10 anos, infectada pelo vírus H5N1 fez elevar para 50 o número de mortes provocadas pela epidemia que atingiu vários países asiáticos, desde o seu início, em 2003. O contágio aos seres humanos faz-se através da inalação de poeiras ou em contacto directo com aves infectadas e não através do consumo de carne.

FÁRMACO

O oseltamivir, princípio activo do Tamiflu, é considerado pelas autoridades de saúde internacionais o mais eficaz no tratamento do vírus. Até hoje era prescrito para tratar a gripe sazonal, um comprimido diário, durante uma semana. A caixa tem 10 cápsulas, custa 25 euros e não é comparticipada.

“A GRIPE DAS AVES VAI CERTAMENTE AGRAVAR-SE”

Xavier Malcata é director da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica e um dos maiores especialistas portugueses em segurança alimentar. Está preocupado com a gripe das aves e prevê a vinda de mais problemas no sector.

Correio da Manhã – Que desafios coloca a situação da gripe das aves?

Xavier Malcata – A gripe das aves está a chegar agora à Europa, mas não é uma situação nova. As aves são normalmente utilizadas para consumo humano, o que é um problema acrescido, mas é uma questão mais geral, que tem a ver com a intensificação da produção animal.

– E isso acontece por que razão?

– Estamos a falar de aves que são normalmente criadas em cativeiro, com uma densidade populacional exagerada. Se houver animais que desenvolvam algum tipo de mutação no vírus, a sua propagação é muito fácil. Com a globalização que existe a todos os níveis, inclusive na distribuição alimentar, pode haver uma disseminação deste problema por todo o mundo rapidamente. Esse problema vai certamente agravar-se, não apenas neste caso em particular, mas em tudo o que tenha a ver com contaminações.

– Como é que isso se combate?

– Felizmente, a Comissão Europeia já está a adoptar regras de restrição da importação de certo tipo de alimentos. Também na criação de aves e da caça em Portugal isso vai acontecer. E penso que essas medidas vão ter de ser levadas muito a sério para evitar termos aí um problema muito grave.

– Porque é que nesta altura do ano há mais intoxicações alimentares?

– Devido às condições atmosféricas e ambientais, mas não só. Na altura das férias, o consumo dos alimentos muitas vezes não é feito nas nossas casas, mas em muitos outros locais, onde a manipulação dos alimentos nem sempre conhecemos.

– A falta de cuidado é do consumidor?

– Normalmente, a maior incidência de problemas ocorre após a aquisição e não tanto na cadeia de produção e distribuição. Obviamente, com isto, não estou a dizer que a cadeia seja completamente segura. Nos cafés, bares e restaurantes há de tudo: os mais conscienciosos e outros que obedecem a certos cuidados.

– Como estamos em Portugal comparando com outros países europeus?

– Tirando pequenas diferenças, a legislação comunitária é a mesma para todos. O grande problema tem a ver com a forma como é aplicada ou verificada a aplicação da legislação. Aí, não apenas no sector alimentar, mas de uma forma mais geral, temos um défice grande comparativamente aos outros países da Europa.

– Há um maior incumprimento?

– Sim, mas não é só da legislação alimentar. É genérico. Nós portugueses temos dificuldade em aplicar legislação de forma consistente.

– Os transgénicos são seguros?

– Até agora, certamente terá havido alguns problemas, mas também houve vantagens. Em zonas do mundo em que existem populações famintas, países em guerra, posso compreender que aí seja muito importante haver um desenvolvimento e uma distribuição mais alargada de transgénicos.

– Uma das suas equipas produziu um requeijão pró-biótico. Quando será lançado no mercado?

– Dentro de poucos meses. O projecto está muito avançado, tem havido testes numa escala piloto. A ideia é ir buscar o requeijão, que é um produto tradicional português, e enriquecê-lo com estirpes pró-bióticas.

PERFIL

Nascido em Malange (Angola) em 1963, Xavier Malcata formou-se em Engenharia Química pela Universidade do Porto e doutorou-se na Universidade de Wisconsin (EUA). Especialista em segurança alimentar, dirige a Escola Superior de Biotecnologia da Católica. É ainda administrador executivo do Centro de Incubação e Desenvolvimento de Empresas em Biotecnologia. Já publicou mais de 200 artigos em revistas científicas internacionais.

Fonte: Correio da Manhã

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