A curto prazo as famílias vão começar a pagar mais pela alimentação. Depois do preço das matérias-primas alimentares ter batido o recorde histórico em Fevereiro, tanto as empresas como o Governo reconhecem que a subida dos preços nos supermercados portugueses é inevitável no curto prazo. Esta será mais uma prova-de-fogo para os já esticados orçamentos familiares.
“Não é fácil passar de um paradigma de dependência externa para um de auto-suficiência, há muitas áreas em que não podemos”, admitiu António Serrano, ministro da Agricultura, em declarações à Lusa. “Se as matérias-primas sobem a nível mundial é natural que tenhamos que pagar mais”, esclareceu ainda fonte oficial do gabinete do ministro, ao Diário Económico, lembrando que a “economia é cada vez mais global” e que só nos sectores intervencionados pela Política Agrícola Comunitária – como o dos cereais – é possível refrear o aumento de preços.
O Governo reagia assim aos dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que revelou ontem que os preços mundiais dos produtos alimentares subiram pelo oitavo mês consecutivo em Fevereiro, atingindo um novo recorde histórico. O índice de preços que acompanha 55 matérias-primas alimentares subiu 2,2% para 236 pontos, o valor mais alto desde Janeiro de 1990. Dos cinco sub-índices de preços monitorizados pela FAO – cereais, leite, oleaginosas, carne e açúcar – apenas o do açúcar não registou um aumento.
A explicar os aumentos estão a redução dos stocks mundiais de alimentos e o aumento continuado da procura dos países em desenvolvimento, um movimento que “não mostra sinais de abrandar, mesmo com os preços elevados”, explicou o responsável da FAO, Abdolreza Abbassian. É por isso que esta tendência de subida se deverá manter inalterada “até ao Verão”, antecipou Abbassian.
Perante a tendência de subida, as associações do sector reconhecem que será uma questão de tempo até que as famílias comecem a sentir o efeito na carteira. “A inflação dos produtos lácteos será um facto de curto prazo. O sector da distribuição vai ter de deixar que subamos os preços dos produtos”, garantiu Pedro Pimentel, presidente da Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios (ANIL).
Pedro Pimentel explicou que as empresas em Portugal têm produção suficiente para o mercado interno, pelo que os preços internacionais do leite não afectam directamente os preços finais ao consumidor. Contudo, o preço dos cereais, que alimentam os animais, “aumenta o custo da produção do leite”. E, nesse capítulo, “na medida do possível, a indústria tem absorvido os custos de produção, mas começa a haver dificuldade em não repercutir” o efeito no preço final.
Pedro Queiroz, director-geral da FIPA, identificou os mesmos problemas. “A incorporação de matérias-primas é o principal custo de produção das empresas industriais. O que se junta ao facto de todos os outros custos aumentarem: petróleo, energia e materiais de embalagem”, lembrou. E perante os factos do mercado, o responsável acusou, uma vez mais, o sector da distribuição: “A indústria tem de conseguir renegociar os preços com a distribuição. É inevitável. No futuro próximo, ou [os industriais] fecham portas ou vivem em sérias dificuldades”.
Em resposta às críticas, a directora-geral da associação dos distribuidores, Ana Trigo Morais, disse apenas que “a APED segue atentamente a evolução dos preços das matérias-primas” e que este “é um assunto que deve preocupar todos”. Contudo, frisou que “o sector da distribuição prosseguirá sempre a política de qualidade e preços baixos”.
Se a tendência de subida dos preços nos mercados internacionais se mantiver, os preços ao consumidor acabarão por reflectir o aumento e as famílias tenderão a contrair o consumo. Embora a procura por este tipo de produtos seja relativamente rígida – isto é, apesar da subida dos preços, vão continuar a comprar bens alimentares – os primeiros impactos já são visíveis. As vendas a retalho de produtos alimentares, bebidas e tabaco caíram em Janeiro, face ao mesmo mês do ano passado, tanto na zona euro, como no conjunto da União Europeia. Conforme divulgou ontem o Eurostat, a contracção foi de 0,8% nos países da moeda única e de 1,3% no conjunto dos 27 Estados-membro.
Fonte: Anil
Segurança Alimentar Desde 2004 a tratar da Segurança Alimentar em Portugal