Empresas portuguesas do sector alimentar e da restauração adquirem planos de auto-controlo da produção em vez de os desenvolverem, denunciou o professor universitário Salvador Barreto. “As pessoas de um momento para o outro viram-se na contingência de possuírem [por legislação aprovada em 2004] um plano de auto-controlo e a melhor coisa que fizeram foi comprá-lo, a custos por vezes bastante elevados, mas que na prática não tem aplicabilidade”, afirmou, à margem do XVI Congresso de Zootecnia.
Refere o despacho da Lusa que, segundo o professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa, os planos tem de ser específicos de determinadas situações: “quem tem uma indústria ou um restaurante não pode comprar um plano, ele terá de ser feito em função da situação”, defendeu. “Tanto mais que depois surgem as entidades oficiais de fiscalização, que pedem as evidências da aplicação, que não existem, ou fazem questões sobre a aplicação que eles não sabem responder”.
No entanto, observou, a situação não abrange a maioria das empresas portuguesas, “mas existe muito”. “Os agentes económicos vão já tendo a percepção que o que adquiriram não é aquilo que lhes fazia falta e começam a concluir que compraram gato por lebre”, disse. Frisou ainda, durante a sua intervenção, subordinada ao tema “Segurança Alimentar – Um compromisso da sociedade”, que os agentes económicos têm vindo a por em prática a metodologia do auto-controlo, não por terem consciência de que dela necessitam mas por ser obrigatório por lei.
“Infelizmente assim é. Isto necessita de ter uma cultura, não houve a formação que deveria anteceder à implementação desta metodologia”, referiu Salvador Barreto.
Os planos de auto-controlo são postos em prática durante a produção, divergindo do controlo de qualidade, feito ao produto depois de laborado, antes da venda. “No controlo de qualidade, se qualquer coisa está mal, o produto vai para o lixo. No auto-controlo, quando é detectado um defeito, em muitas situações, o produto poderá ser beneficiado”, explicou.
Salvador Barreto sustentou que com o auto-controlo “ganha-se em tempo” e defendeu: “Muitas vezes em produto que acaba por não se estragar, há todos os benefícios.” Referiu, igualmente, que o controlo de qualidade acaba por possuir só um interesse histórico: “os resultados quando surgem, já o produto está consumido”, disse. “Se fizermos um controlo de qualidade que diz respeito à higiene, baseado em análises microbiológicas, estas demoram oito dias a fazer. A maior parte dos alimentos que consumimos não pode esperar oito dias, portanto posso apanhar uma intoxicação alimentar e só depois tenho os resultados”, explicou.
Pelo exposto, Salvador Barreto considera o controlo de qualidade “ineficaz”: “Está confirmado que é ineficaz, tanto mais que surgiu esta metodologia do auto-controlo, esta sim consegue detectar os defeitos durante o fabrico e conseguimos produzir produtos, não direi com zero defeitos, mas com uma grande margem de segurança”. Apesar das críticas, Salvador Barreto considerou que Portugal, no campo da segurança alimentar, “está muito bem comparado com o resto da Europa”. “No auto-controlo, estamos ao nível da Europa comunitária ou a níveis superiores, concretamente no que diz respeito aos países mediterrânicos”, concluiu.
Fonte: Anil
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