Empresários espanhóis à conquista dos olivais

Milhares de hectares de terrenos áridos e desertos do Alentejo estão a ser transformados em campos férteis e prósperos, com uma “fórmula” que, não sendo mágica, baseia-se no sentido empresarial. Ao abandono dos empresários portugueses, responderam em peso os espanhóis, nomeadamente os andaluzes e os extremenhos.

Apesar do regadio de Alqueva ser ainda uma miragem para concelhos como Beja, Cuba, Moura, Serpa e mesmo Ferreira do Alentejo, os olivicultores espanhóis, acumulam as suas reservas de água, o que lhes permite fazer a reconversão dos tradicionais olivais de sequeiro em regadio, optando por uma cultura do olival em extensivo ou super-extensivo.

Segundo dados da Direcção Regional da Agricultura do Alentejo (DRAAL), existiam nos 47 concelhos do Alentejo cerca de 158 mil hectares de área de olival. Quantos aos hectares de terra que são propriedade ou explorados por “nuestros hermanos”, os números divergem. A Câmara Oficial Espanhola de Comércio e Indústria sustenta que os investidores espanhóis possuem 25 mil hectares, a Secretaria de Estado da Agricultura portuguesa estima que essa área se cifra nos 15 mil hectares.

Os empresários espanhóis são unanimes em afirmar que “o preço do hectare de terra de regadio e a sua qualidade” foram fundamentais para a incursão de investidores no Alentejo, “sedentos de água e de novos investimentos mais rentáveis”. Quanto há 3/4 anos começaram a chegar, os espanhóis compravam no seu país um hectare de terra de regadio por 24 mil euros. No Alentejo vendia-se por cerca de um quarto desse valor.

Os 33 mil quilómetros quadrados do Alentejo fazem da região a maior, mas também a mais desertificada de Portugal. Actualmente vivem na região 535 mil pessoas, das quais 260 mil são pensionistas e cerca de 30 mil desempregados. Apesar da compra massiva de terras, os espanhóis garantem que “esta não é uma nova forma de colonização”.

“Modernizar a agricultura e dinamizar um tecido sócio-económico com graves problemas de desemprego e desertificação, permitindo uma mais valia económica”. São estes os objectivos dos investidores, traduzidos por José Luís de Prado, sócio do olival da Fonte dos Frades, situada no concelho de Beja, e considerada uma herdade modelo (ver caixa).Os empresários recusam a ideia de terem vindo para o Alentejo por causa dos subsídios. “Eles terminaram e os agricultores espanhóis continuam a chegar”, diz.

“O prazer de viver e trabalhar no Alentejo, custou-me o casamento”, diz German Mangas, um dos primeiros a chegar. Há 13 anos, o empresário espanhol deixou Badajoz para viver no Alentejo. Não se adaptando ao clima e ao modo de vida da região, a mulher deu-lhe a escolher. “Ou ela ou a agricultura. Preferi a vossa terra”, recorda.

Com uma adega em Quintos (Beja) e uma fábrica de azeitona e um lagar em Moura, German diz-se “um apaixonado pela tranquilidade, o modo de vida e a gastronomia alentejana”. Recentemente, adquiriu mais 60 hectares de terra que espera regar com água de Alqueva em 2009.

Num recente Fórum Empresarial luso-espanhol, realizado em Beja, Castro e Brito, presidente da Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo apontou o dedo aos colegas portugueses. “Temos um sistema de courelas, não falamos uns com os outros e, depois não temos força”, reconheceu.

A herdade modelo

Uma herdade que, depois do 25 de Abril e durante cerca de 20 anos pouco ou nada produziu, é hoje uma das mais bem sucedidas do Alentejo. Durante anos propriedade de Rosado Fernandes, dirigente da Confederação dos Agricultores de Portugal, deputado ao Parlamento Europeu e à Assembleia da República – que a herdara do seu bisavô, Piteira Fernandes, que a comprou em hasta pública -, a herdade de Fonte dos Frades está hoje em mãos espanholas. Cerca de 18 milhões de euros foi o valor investido na aquisição das terras, plantação das oliveiras e aquisição de máquinas. Só na construção do largar, a funcionar desde Novembro, foram investidos 3,5 milhões de euros. Com cerca de 630 hectares de olival, a propriedade tem 180 mil pés de oliveira e a actual campanha deverá render cerca de oito milhões de quilos de azeitona. A próxima campanha deverá render 15 milhões de quilos, atingindo um máximo de 23 milhões de quilos. Com 15 trabalhadores no quadro, a empresa dá trabalho a outros 40 sazonais. “A forma de trabalhar dos portugueses é boa e adaptaram-se aos nossos métodos”, conta José Luís de Prado. O proprietário garante que a Fonte dos Frades é uma empresa “de excelência na qualidade e produtividade” e admite que, dentro de 2/3 anos, atingirá a “velocidade cruzeiro”.

Fonte: Jornal de Notícias

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