Distribuição pressiona fornecedores a assumir IVA

Pelo menos duas grandes empresas da distribuição alimentar estão a pedir aos fornecedores para assumir o aumento do IVA, que entra hoje em vigor. Ao mesmo tempo que prometem oferecer ao consumidor o preço mais baixo do mercado – alguns como o Lidl, Intermarché e E.Leclerc anunciam mesmo que suportam o aumento do imposto -, as superfícies comerciais fazem pressão extra sobre a indústria para que reduza mais um ponto percentual no preço dos produtos, a pretexto da medida do Governo para acelerar a redução do défice.

Raquel Vieira de Castro, administradora da Vieira de Castro, diz que esta é mais uma forma de pressão. “Alguns operadores anunciaram que vão absorver o IVA, outros mantêm os preços solicitando aos fornecedores que suportem a subida do imposto. Nós já vamos ter de assumir este aumento quando compramos matéria-prima”, diz. O efeito neutro que a medida teria para os fornecedores (compram e vendem mais caro) acaba por cair por terra com a abordagem das grandes superfícies, acrescenta a administradora da empresa de Vila Nova de Famalicão que produz bolachas, rebuçados e amêndoas.

João Paulo Gibral, presidente da Centromarca – representa 54 empresas que detêm 800 marcas de produtos -, confirma que “não haverá empresas excluídas” na abordagem feita pelos super e hipermercados. “Quando a distribuição diz que assume o aumento do IVA, na prática o que vai acontecer é que alguém vai ter de pagar isso. Há grande probabilidade de os fornecedores terem um enorme contributo nessa poupança”, diz, acrescentando que algumas empresas “têm pouca flexibilidade para acomodar estes pedidos, o que causa stress na relação comercial”.

A Queijo Saloio, por exemplo, vê-se obrigada a baixar margens já que a concentração do mercado dificulta qualquer hipótese de recusa. De acordo com dados da Nielsen, a Sonae MC (dona do Continente e Modelo) e a Jerónimo Martins (Pingo Doce) representaram 40 por cento da compra dos lares em 2009. “As coisas seriam mais fáceis se não fosse absolutamente dramático ficar de fora de um dos operadores”, admite Clara Moura Guedes, administradora da empresa. E acrescenta: “Se é um imposto sobre o consumo, não faz sentido transformá-lo em IRC. Se são as empresas fornecedoras que assumem o aumento, passa a ser um imposto para as empresas.”

Fonte oficial da Jerónimo Martins garante que o grupo “está empenhado em fazer com que os portugueses sintam o menos possível esta subida do IVA”. A estratégia será concretizada “em conjunto com os seus parceiros de negócio”, fornecedores e prestadores de serviços, e, para isso, estão a ser identificadas “soluções viáveis” para “amortecer o impacto deste aumento do imposto nos orçamentos das famílias”.

Já a Sonae MC vai apostar numa “política promocional agressiva centrada em descontos no cartão de fidelização” e mantém a orientação de “oferecer os melhores preços aos seus clientes”. Esclarece ainda que não pediu aos seus fornecedores para que absorvam a subida do imposto.

O Auchan (dono do Jumbo) diz que “o Grupo tem para com os seus clientes o compromisso de oferecer os preços mais baixos das regiões onde está implantado. O aumento do IVA em nada irá afectar este compromisso estabelecido”. Não esclarece se negociou com fornecedores. Outras superfícies comerciais da área não alimentar, como o Ikea, vão reflectir a actualização. O El Corte Inglés não o fará “na maior parte dos artigos”, mas nos restantes vai “respeitar a política de preço final aconselhado por cada marca”, diz fonte da empresa. A partir de hoje também 103 das 360 tarifas de portagem da Brisa vão ficar mais caras.

Fonte: Anil

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