A directora da ASAE no Norte, Fátima Araújo, criticou hoje algumas inspecções que obrigaram instituições de solidariedade social a deitar comida fora e pediu aos inspectores para serem “suficientemente sábios” para compatibilizar gastronomia tradicional com segurança alimentar.
“Tem algum jeito, numa altura em que se fala de crise mundial de fome, andarmos a deitar fora compotas que eram de instituições de caridade?”, insurgiu-se Fátima Araújo.
“Se há tradição de feitura daquelas compotas, se as amorazinhas estavam fresquinhas, se há práticas centenárias, vamos mas é cuidar delas”, acrescentou.
A inspectora-directora do Norte da ASAE (Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica) falava em Viana do Castelo, no decorrer de uma sessão de esclarecimento promovida pela Associação Empresarial e a PSP locais, em que marcaram presença os vários órgãos fiscalizadores das actividades económicas.
Confessando-se uma “acérrima defensora” da gastronomia tradicional, Fátima Araújo apelou aos inspectores da ASAE para serem”suficientemente sábios” de forma a compatibilizar aquela cozinha com as práticas de higiene e segurança, “para não haver problemas para a saúde pública”.
Incentivou ainda os empresários da restauração para se mexerem e tratarem das suas vidas, pelo que é “único, como o cabritinho da Serra d’Arga, o arroz de cabidela ou os rojões à minhota”.
“Lutem pelo que é vosso, porque não será Lisboa que o fará”, disse ainda, defendendo que a solução para a gastronomia e os produtos tradicionais poderá passar pela deslocação para as câmaras dos médicos veterinários actualmente afectos ao Ministério da Agricultura.
“O que estarão a fazer os médicos veterinários da Agricultura, que o senhor ministro está mortinho por os pôr naquela coisa que se chama mobilidade? Por que é que não se põe esses médicos à procura das soluções ideais, junto das câmaras, criando espaços colectivos para a realização de inspecções sanitárias que assegurem o cumprimento dos requisitos legais?”, questionou.
Fátima Araújo garantiu que se, por culpa da ASAE, a gastronomia tradicional se perder, abandonará o organismo.
“Porque, se isso acontecer, não cumpri o meu papel”, afirmou.
Lembrou que já leva 34 anos em órgãos de polícia criminal e que tem tido “bom senso” no desempenho da sua actividade, fazendo um apelo a todos os outros inspectores para que também o tenham, sendo “suficientemente sábios” para compatibilizar gastronomia tradicional com segurança alimentar.
Nesse sentido, apelou aos empresários para que se insurjam e, até, a contactem directamente, caso algum inspector os autue por, por exemplo, terem pó numa prateleira ou por disponibilizarem pau de canela para os clientes mexerem o açúcar do café.
“Eu, enquanto for directora, não vou permitir que isso aconteça”, garantiu.
Fátima Araújo pediu mesmo aos empresários presentes na sessão para não fazerem “perguntas difíceis”, quando um deles a questionou sobre o arroz de sarrabulho, os enchidos e os chouriços feitos em casa.
“Não me façam perguntas difíceis, não me obriguem a dizer coisas que eu não quero”, rematou.
Fonte: Agroportal
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