O presidente da Associação Nacional dos Produtores de Milho (ANPROMIS) afirmou ontem que ainda é cedo para afirmar se vai ou não haver colheita excedentária de cereais na Europa e uma diminuição da especulação no preço dos cereais.
“Não se pode dizer nesta altura (só a partir de Junho) se vai haver boa colheita de cereais. Percebo que o senhor ministro (da Agricultura) queira descansar as pessoas mas não sabemos ainda se vai haver secas ou trovoadas”, disse hoje à Lusa o presidente da associação dos Produtores de Milho, Luís Vasconcelos e Souza.
“Se não houver água não se produzem e se cair água a mais estraga o grão, recordo que o ano passado nesta altura a chuva que caiu no Reino Unido levou a Inglaterra a ficar sem trigo”, sustentou Luís Vasconcelos e Souza.
Segundo o ministro da Agricultura, a especulação no preço dos cereais tende a acabar com o aumento previsto da produção na União Europeia, estimando-se obter excedentes de 24 milhões de toneladas este ano.
Em declarações à agência Lusa, o ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, Jaime Silva, defendeu terça-feira que se assiste a uma situação de “especulação, mas também a um ciclo de preço normal no mercado”, resultado da combinação entre a oferta e a procura.
Depois do aumento do preço dos cereais, que foi menos acentuado na Europa que no mercado internacional, “com a nova colheita que se espera seja excedentária, os preços deverão baixar”, mas nunca para valores semelhantes ao período de antes de 2005, especificou Jaime Silva.
Após em 2007 os stocks de cereais terem estado “próximo do zero”, para 2008, a perspectiva é que a situação se altere e o excedente atinja as 24 milhões de toneladas.
O presidente da Associação Nacional dos Produtores de Milho alertou ainda para o facto de “ter aumentado a área cultivada mas em terras marginais (em terras menos produtivas) e por isso também podem não dar tanto como nas mais produtivas”.
Por seu lado, o presidente da Associação dos Produtores de Cereais, Bernardo Albino, ouvido hoje pela Lusa considerou que a haver uma boa produção esta “será uma atenuante, mas não resolve o problema de forma integral”.
“A nível mundial o problema (da especulação) vai-se manter. A questão está mais ou menos controlada em termos europeus mas em termos mundiais vai continuar a existir com o aumento da procura na China e na Índia e com os biocombustíveis nos Estados Unidos da América”, sustentou.
Para Bernardo Albino, apesar da Europa ser regra geral excedentária em cereal “é deficitária em oleaginosas (como a soja e o girassol) necessárias para as rações dos animais e estas têm que ser importadas e por isso deve haver uma política europeia que permita cultivar variedades de OGM (organismos geneticamente modificados)” diminuindo as importações na Europa.
“Não há falta de cereais nem há ruptura no mercado”, insiste Jaime Silva, acrescentando que os portugueses consomem cerca de quatro milhões de toneladas de cereais por ano, um número muito inferior, por exemplo, ao excedente de 24 milhões previsto para 2008 na Europa.
Embora somente 14 por cento do trigo produzido no mundo passe pelo mercado internacional, “os consumidores estão a ser afectados pela especulação” que se regista nesse mercado, defendeu o governante.
A Europa não é das regiões mais atingidas pela crise do mercado internacional dos cereais, mas “as grandes empresas de comercialização estão a aproveitar para aumentar o preço [dos produtos] no consumidor”, com base nas cotações actuais, quando a matéria-prima hoje utilizada no fabrico dos alimentos foi comprada a preços praticados há um ano, explica Jaime Silva.
E, avança que o valor pago pelo trigo mole, utilizado para fazer pão, atingiu um pico em Janeiro, mas em Março já caiu porque “em Junho já vai haver cereal” da nova campanha.
Este tipo de trigo custava 122,7 euros a tonelada em 2006 e subiu aos 187 euros em 2007, o que representa um acréscimo de 53 por cento, especificou o ministro da Agricultura.
Na UE, entre Abril de 2007 e o mesmo mês deste ano, as subidas nos preços foram de 37 por cento no trigo, 35 por cento no arroz e 23 por cento no milho, segundo dados citados por Jaime Silva.
E, perante a crise dos cereais, a UE avançou medidas como a abolição do pousio para estes produtos, o que levou à possibilidade de produzir mais 16 milhões de toneladas este ano, e a retirada dos direitos de importação, ao mesmo tempo que não dava apoios à exportação.
Quanto ao argumento de que a utilização de cereais na produção de biocombustíveis veio contribuir para o seu encarecimento, Jaime Silva diz que “a UE utiliza menos de dois por cento do total de cereais” para aquele efeito.
Portugal importa cerca de 70 por cento dos cereais que consome, principalmente do Reino Unido e da Alemanha, onde as subidas de preços foram inferiores ao mercado internacional.
Aquela percentagem sobe aos 90 por cento no caso do trigo e é de 60 por cento para o milho.
Como salientou à agência Lusa, o secretário de Estado adjunto da Agricultura, Luís Vieira, “Portugal é um importador de cereais e não tem condições para ser autosuficiente”.
Jaime Silva faz questão de salientar que a expectativa de aumento da produção de cereais em 2008 é justificada também pela resposta dos agricultores às condições de mercado.
Fonte: Agroportal
Segurança Alimentar Desde 2004 a tratar da Segurança Alimentar em Portugal