A comida já contribui com perto de 27 por cento para o défice externo português. Numa altura em que os preços dos alimentos estão a disparar em todo o mundo, Portugal gastou 7,2 mil milhões de euros a comprar comida fora do país – segundo dados do INE – enquanto as exportações renderam 3,5 mil milhões de euros.
Ou seja, em 2007, o défice alimentar português chegou a 3,5 mil milhões: 26,7 por cento défice externo total (13,9 mil milhões de euros). Peixe e marisco, cereais e sementes foram os produtos que mais pesaram nas importações de comida, que aumentaram 44 por cento em comparação com 2006 – com os cereais a crescer 35,5 por cento.
60 quilos de peixe por português
Só o peixe, mariscos e moluscos representam 21 por cento do total das importações, segundo os dados de 2007 do INE, um valor que equivale a um gasto de 1,2 mil milhões de euros. Que peixe? Quase todo. As lotas e barcos portugueses só conseguem fornecer 1/3 da procura. O resto é importado: douradas, sardinhas, bacalhau, pescada e muitos outras espécies. A Grécia, por exemplo, é um dos principais fornecedores de carapaus em aquicultura – vendidos nos hipermercados. Ao todo, cada português consome 60 quilos de peixe por ano, número que nos coloca no terceiro lugar do ‘ranking’ mundial. Na balança das exportações, peixe, marisco e moluscos pesam 11,8 por cento do total de produtos exportados em 2007, o que se traduz em 369 milhões de euros.
Cereais custaram 629 milhões
A importação de cereais já corresponde a 10 por cento das importações nacionais, o que se traduz num gasto de 629 milhões de euros em 2007. “Portugal produz poucos cereais devido às condições naturais do país”, explicou João Machado, presidente da CAP. “Produzimos 8 por cento do total necessário para consumo interno”, acrescentou. O responsável garante, contudo, que a produção de milho é alta, em comparação com outros países, devido às características do solo nacional, mas quanto a trigo para pão e trigo rijo para produção de massas ou bolachas, o produto nacional fica aquém das necessidades. Sinais que o ministro da Agricultura, Jaime Silva, vê como preocupantes. “Não podemos ter o ‘stock’ de cereais a zero na União Europeia. E já estamos: no ano passado foi ‘stock’ zero e houve um desequilíbrio entre oferta e procura”. Em 2005, ano de seca extrema, Portugal teve mesmo de pedir cereais à Hungria.
Carne é grande fatia das importações
A carne corresponde a outra grande fatia do total das importações. Portugal gastou 757 milhões de euros em carne e miudezas, segundo os dados do INE, o que corresponde a 12 por cento do total dos gastos a comprar de comida no estrangeiro. O vinho, bebida mais procurada, corresponde a 27,3 por cento do total de produtos vendidos ao estrangeiro, representando um ganho de 852 milhões de euros.
E o que acontece ao que sobra?
Produtos perecíveis, como a fruta ou legumes, são mais passíveis de se estragar e de ser desperdiçados. Portugal importou 7 por cento de fruta, cascas de citrinos e melões, em 2007 – o que corresponde a 434 milhões de euros – e exportou 145 milhões de euros nestes produtos, o que corresponde a 4,9 por cento das exportações. Ao contrário de países como França, onde o excesso de fruta leva a que esta muitas vezes seja enterrada e desperdiçada, em Portugal a maior parte do excedente de fruta calibrada – com o tamanho estipulado pela UE – é entregue ao Banco Alimentar contra a Fome. “Os produtos excedentários que correspondem às normas comunitárias são entregues aos Bancos Alimentares, para não baixar o preço ao produtor”, explicou ao Diário Económico Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a Fome. A responsável frisou ainda que a fruta que é pequena demais para corresponder às regras comunitárias é utilizada para a produção de sumos. Ou seja, em Portugal desperdiça-se pouco, garantiu João Machado. “Não somos um país que produza tanto que sejamos obrigados a deitar fora.”
Cereais ou azeite: a grande dúvida dos produtores
Há três anos, investir no olival era a melhor opção para muitos agricultores. A produtividade dos solos portugueses e os apoios à conversão das culturas levaram a que muitos preferissem esta cultura, investindo na exploração intensiva. Agora, com o aumento do preço dos cereais no mercado internacional, alguns estão na dúvida. Apesar de as ajudas de Bruxelas e do Estado privilegiarem cada vez menos os cereais – nomeadamente o trigo –, os preços de referência tornam esta cultura competitiva mesmo sem subsídio. Olhe-se para o milho: basta que haja água e terra em abundância para que a produtividade em Portugal seja uma das melhores da Europa. Em 2009, a UE vai começar a discutir as perspectivas financeiras e as verbas para a agricultura prometem ser um dos pontos mais polémicos. Apesar de França e Alemanha defenderem a prioridade da parte agrícola, muitos países querem desviar verbas para novas prioridades como a energia e o desenvolvimento tecnológico.
Fonte: Anil
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