A identificação de um gene da planta do arroz, que lhe permite um mergulho total durante duas semanas seguidas, como se nada fosse, abre a porta ao desenvolvimento de novas variedades deste cereal imunes às inundações que ciclicamente devastam uma parte da produção mundial deste cereal. É pelo menos isso que esperam os cientistas que fizeram a descoberta e a anunciam na edição de hoje da revista Nature.
O arroz, cuja planta precisa de muita água para se desenvolver, é a base da alimentação de mais de três mil milhões de pessoas no planeta. Mas o facto de um quarto da sua plantação mundial ser feita em regiões com regimes de monção, responsáveis por inundações imprevisíveis, e muitas vezes prolongadas, é anualmente um importante factor de incerteza quanto à sua produção. Em anos maus, as perdas podem afectar a alimentação de 70 milhões de pessoas, chegando a causar perdas económicas da ordem dos mil milhões de dólares.
A identificação de uma variante de um gene do arroz – o Sub1, que é abreviatura de Submergence 1 – que lhe dá uma inédita resistência à submersão total durante duas semanas seguidas sem qualquer problema para a planta, pode no entanto fazer a diferença a partir de agora.
Essa é a expectativa do grupo internacional de investigadores, liderado por Kenong Xu, da universidade da Califórnia, que testou com sucesso plantas de arroz modificadas com este gene – há 120 mil espécies diferentes de arroz e, para a maioria, a imersão total prolongada é fatal.
Os cientistas introduziram o gene Sub1 em plantas de arroz que apenas suportam uma semana completamente submergidas sem que isso as mate, e os resultados que descrevem não podiam ser mais animadores: as plantas mantiveram todas as suas propriedades, incluindo o rendimento em termos produtividade do cereal.
Há algumas variedades de arroz que toleram melhor a submersão total durante mais um ou dois dias do que o normal mas, até agora, todas as tentativas de desenvolvimento de espécies mais resistentes viáveis para a agricultura, utilizando o processo de hibridização, falharam.
“Estamos muito satisfeitos por termos conseguido chegar aqui, utilizando as mais recentes tecnologias da biologia molecular, para ajudar a melhorar também a vida dos mais pobres”, disse a propósito o investigador da universidade da Califórnia e co-autor do estudo, David Mackill, citado pelo serviço noticioso de ciência online EurekAlert. Mackill sublinhou ainda que este avanço “faz antever descobertas ainda mais importantes nesta área, no futuro”.
A possibilidade de submersão da planta do arroz por um período maior (até às duas semanas) pode ainda ajudar a combater as ervas daninhas e assim melhorar a produtividade do cereal.
Fonte: Diário de Notícias
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