Criações À solta em zona de risco especial

“Olhe, vocês são os primeiros que vejo cá vir falar da gripe das aves”. José Santos amanha os gansos e os patos no “maninho” atrás do quintal, na Torreira. Areia e Sol. Os animais grasnam, soltos para vida, a escassos quilómetros de uma pateira natural, a de S. Jacinto, em Aveiro. “Zona de risco especial para aves migratórias”, iguais àquelas que parecem ter transmitido o temido H5N1 a uma exploração de perus em França e gerado, com isso, o primeiro foco da doença em animais domésticos na União Europeia.

À roda de S. Jacinto, como das 19 outras áreas húmidas e alagadiças definidas pelo Instituto de Conservação da Natureza (ICN) como “zonas de risco especial”, é desde Novembro obrigatório o confinamento de aves de capoeira. José não quer saber. Gripe das aves? “A gente vê na televisão”. Não sabe de fiscalizações ou, sequer, de informações. Porque a fiscalização, que compete oficialmente à Direcção Regional de Agricultura (DRA), pura e simplesmente não é feita por ninguém.

>> H5N1?

Não foi preciso andar muito para percebê-lo. As dezenas de galinhas de S. Jacinto e das freguesias que se encaixam no círculo traçado pelo ICN vivem como querem, as poucas que estão presas estão-no por razões que nada têm que ver com o altamente patogénico vírus H5N1. Ali, ninguém conhece nada disso, para lá do que “umas senhoras” vão dizendo “televisão”. Veterinários? Gente da DRA? Da Câmara? Nada.

Há uns mortos lá longe e umas aves suspeitas, algo mais perto, “na França, não é?” “Não chega cá”. É firme nas convicções a jovem Urbana Vieira, 32 anos, empregada do Rendimento Mínimo, estudante à força. Também tem as galinhas ao ar livre, com bebedouro e comedouro a aquecer ao Sol, junto às cordas da roupa no quinhão de terra emprestado. A um bater de asas da pateira, naquele dia com milhares de “visitantes” estrangeiros. “Sabe como se transmite a gripe das aves?” Não…

E, no entanto, os ministros da Agricultura e da Saúde vêm ciclicamente à mesma televisão das “senhoras” dizer que “Portugal está preparado. Estará?

>> O aviso nº2

O “Aviso nº2” da Direcção-Geral de Veterinária, de 3 de Novembro de 2005, veio acatar uma decisão comunitária e fixar as regras para áreas frequentadas por aves migratórias, finalmente reconhecidas como vectores do H5N1. Com absoluta clareza “é proibida a manutenção de aves de capoeira ao ar livre”. Porque a doença se transmite através do contacto entre migradoras e domésticas.

Da assessoria do Ministério da Agricultura, que resolveu centralizar toda a informação sobre medidas tomadas em Portugal, garantem-nos que a obrigação é para “todos”, produções em escala e galinheiros caseiros. E confirmam que a fiscalização compete às DRA.

“Logo que isto surgiu, reuni com o presidente da Câmara a quem levei os normativos de biosegurança”. Carlos Alberto Silva, veterinário municipal de Aveiro, está tranquilo. Cumpriu a parte dele receber indicações da Direcção de Intervenção Veterinária distrital e passá-las às autoridades. Falou com a Polícia Municipal, a GNR e a Protecção Civil e o autarca, a quem compete passar a outras autoridades, mais próximas das populações, que é como quem diz, presidentes de junta. “Até sugeri que a melhor pessoa para avisar as populações seria o padre”.

>> GPS aviário

No terreno, ninguém nos falou do padre. Apenas da televisão e, não raro, com um encolher de ombros. Zona de risco? Pois… José Santos não faz caso. E, assim como assim, nunca ninguém ali lhe foi mandar encarcerar a bicharada. “A reserva é acolá e aqui nesta zona, as aves migratórias não são de se meter”. Terão as aves sistema de navegação GPS?

A vizinha Ana Rosa Melo vai mais longe, com a segurança de quem sabe da vida vivida a pulso na pescaria. Arruma o negro do avental para garantir que, “para já, a gripe não vem das aves”. Diz a mulher que já criou muita criança e nunca viu crias engripadas. “A gripe é do tempo. O que manda a gripe é estar de Norte, vem vento e Sol, e depois chuva e a gente constipa…” Então, e a gripe das aves de que fala a televisão? “Só se for por apanhar vento”. Zona de risco? “Aqui? Aqui é muito saudável, estamos entre a Ria e o mar”.

Carlos Alberto Silva lamenta que a cadeia de informação pare antes do destinatário, mas não se quer atravessar no caminho das autoridades locais. “Deveriam recorrer à GNR”, porque é mesmo “obrigatório confinar aves nas zonas de risco”, tal como o foi proibir todas a feiras de animais ao ar livre. No máximo, segundo as derrogações do “Aviso nº2”, autoriza-se a criação ao ar livre em casos especiais, desde que comedouros e bebedouros estejam ao abrigo da sede e das fezes das aves migratórias e desde que as instalações tenham “elementos dissuasores”. Entenda-se redes de malha apertada e afins.

>> Renitências

Rede como a que aparta as pintas de José Marquinhos do quintal mimoso de couves. “É para não comerem os verdes”. Este José vive tranquilo a sua reforma de marinheiro “nas lanchas da carreira” entre S. Jacinto e Aveiro. Gasta-a mais a “patroa”, a dona Maria, entre gaiolas de periquitos e galinhas mal comportadas. É outro aluno da televisão no que à gripe das aves toca. Mas parece ter aprendido o suficiente para desconfiar de gente da cidade vestida de jornalista. À socapa, a mão despida retira de uma das gaiolas o corpo inerte de um periquito macho e sepulta-o no bolso da jaqueta. “Sei lá se a gripe pode chegar a Portugal”, desabafa, enquanto distrai o incómodo do olhar na árdua tarefa de limpar uma tigela de gelado transformada em comedouro. Não ouviu o ministro da Saúde admitir que “é muito provável”.

“Há pessoas mais renitentes”, admite o veterinário municipal, que também acha que às notícias sobre surtos de H5N1 pelo mundo fora tem faltado o complemento nacional. Mas faria este complemento a diferença na cabeça de quem só concebe ter as galinhas presas para não sujarem o pátio, ou para se protegerem dos cães vadios.

Ana Maria Amaral não tem televisão. Tão pouco casa de banho, ou casa sequer. Vive num palheiro há três mãos cheias de anos, criou lá os filhos ao som do rádio, instalados apenas pouco melhor do que os garnisés. Estão tapados, mas é porque a porta da cerca ao ar livre foi levada pelo vento. Gripe das aves e zona de risco? Ana Maria tem mais com que se preocupar…

Fonte: JN

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