Chumbo contamina aves

Ao premirem o gatilho, 182 394 caçadores colocam em causa a saúde pública perante as muitas dezenas de milhões de cartuchos que por ano usam no abate de peças. A acusação parte da organização ambientalista Quercus, que defende “a proibição gradual do uso do chumbo na caça perante o envenenamento das aves”.

A abertura, ontem, da caça a aves aquáticas como os patos, galeirões e galinhas d’água, levou ao regresso de milhares de caçadores às zonas húmidas. Num alerta para o possível envenenamento das aves, a Quercus realizou ontem uma acção de protesto na Lagoa de Melides (Grândola).

Para o presidente da organização, Hélder Spínola, “o papel negativo do chumbo nas aves resulta de estes animais ingerirem pequenas pedras de areia que os ajudam a digestão na moela. Com a caça e o depósito nos terrenos de esferas de chumbo, os animais acabam também por ingerir o metal, do que resulta a intoxicação conhecida por saturnismo e que leva à morte”. “A presença do chumbo na circulação sanguínea tem também efeitos nefastos para o homem, na sequência da entrada destes animais na cadeia alimentar”, diz Hélder Spínola.

“Num estudo financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, os investigadores chegaram a valores de envenenamento perto de 60 por cento no pato-real, ficando ainda provada a ocorrência de mortalidade devido a este facto em Portugal”, acrescenta.

Actualmente, a utilização do chumbo na caça nas zonas húmidas é interdita em vários países como, por exemplo, Dinamarca, Espanha e EUA, onde o chumbo é substituído por esferas de aço. Portugal assinou o Acordo para a Conservação das Aves Aquáticas Migradoras Afroeuroasiáticas, onde se aponta para a redução do uso do chumbo nas zonas húmidas, mas esta não foi ainda regulamentada.

Para Eduardo Biscaia, presidente da Federação Nacional de Caçadores, “uma vez definidas restrições ao uso do chumbo os caçadores irão acatar”. “Isso não pode ser feito é por imposição da Quercus”, sublinha.

RECOLHA DE ANIMAIS FERIDOS

Todos os anos a actividade cinegética deixa por terra animais feridos. Com o objectivo de os curar e, posteriormente, devolvê-los à Natureza, a organização ambientalista Quercus conta com dois centros onde podem ser entregues animais feridos de espécies protegidas. Os Centros de Recuperação de Animais Selvagens estão localizados em Santo André (Santiago do Cacém) e em Castelo Branco. A Quercus recomenda, no entanto, que a entrega se faça de preferência nas sedes das áreas protegidas (Parques ou Reservas Naturais) ou então no Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente da GNR (SEPNA), que posteriormente encaminharão os animais feridos para os serviços da Quercus ou para outros centros de recuperação geridos pelo Instituto de Conservação da Natureza ou organizações não governamentais (ONG). A Quercus classifica de “confrangedora” a “falta de meios de fiscalização existentes no terreno”. “O controlo de predadores e o abate de exemplares de espécies protegidas continua a ser feito. E o uso de veneno é outro flagelo em prática”, diz o ambientalista Hélder Spínola. Para o controlo deste problema, a Quercus participa no Programa Antídoto (www.antidoto-portugal.org).

‘MELIDES LIVRE DE CAÇADORES’

A organização ambientalista Quercus defende que “a zona húmida da lagoa de Melides fique livre de caçadores”. “Esta área é sujeita a diversas pressões como a poluição e a actividade agrícola”, sublinha Hélder Spínola, que indica ainda que “a presença de habitações, parques de campismo e estradas são factores que, por lei, restringem a área de caça a certos limites que, por dificuldades de fiscalização, são frequentemente ultrapassados pelos caçadores”. “É nestes terrenos, onde a caça é proibida, que a Quercus colocou dez ‘espantadores’ de caçadores, cada um com cerca de quatro metros de altura”, acrescenta o mesmo responsável. A Quercus entende que perante todos os limites existentes e a pequena dimensão deste espaço natural, “deveria ser decretado o fim da caça”.

SABER MAIS

CALENDÁRIO POLÉMICO

A Federação Nacional de Caçadores contesta o calendário estabelecido para a época

venatória, defendendo que as aves aquáticas só deveriam ser caçadas no próximo mês. A Quercus entende que caçar desde ontem estas espécies dizima os animais jovens.

FRACA VISIBILIDADE

A caça aos patos uma hora antes do nascer do Sol e uma hora depois do pôr-do-Sol é contestada pela Quercus. Os caçadores não conseguem distinguir as espécies, levando à morte de aves protegidas com consequências graves na conservação da Natureza.

GRIPE NA AMÉRICA

Exames realizados em nove patos do estado norte-americano de Maryland deram positivo para uma forma de baixa patogenicidade do H5N1, informou o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. O total de aves contaminadas não foi revelado.

Fonte: Correio da Manhã

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