As primeiras 20 500 toneladas de cereais importados da Hungria, destinados a fazer face à escassez de alimentos para animais devido à seca, não chegaram para as encomendas. Mas não foram os agricultores os principais licitadores nas cinco sessões levadas a cabo em Lisboa – estes foram claramente ultrapassados pelas empresas de rações.
Segundo informações do Instituto Nacional de Garantia Agrícola (INGA), que representa o Estado como intermediário no negócio, apenas três associações de produtores de gado fizeram ofertas de compra, tendo adquirido somente 6 100 toneladas. As restantes 14 400 foram comprados por fábricas de rações, para revenda, que conseguem, assim, poupar 24 euros por tonelada. Os cereais de intervenção custam 106 euros por tonelada, enquanto o preço de mercado está fixado em 130 euros.
Não é por isso de estranhar que, nesta primeira fase, tenha havido pedidos para um total de 30 750 toneladas, ficando a faltar 10 500. No entanto, já chegaram ao porto de Leixões mais 13 mil toneladas de milho e 16 mil de trigo, que começam a ser licitadas amanhã.
Os agricultores, a quem se dirige esta medida extraordinária negociada pelo Governo junto da Comissão Europeia (CE), têm prioridade na aquisição dos cereais de intervenção – que poderão chegar até às 400 mil toneladas, conforme a saída que forem tendo – mas o desinteresse é justificado pelo sector com o “preço e a época” em que o trigo e o milho chegaram ao país.
O secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Luís Mira, lamenta que esta medida tenha sido anunciada a 7 de Abril de 2005 e que só a 18 de Janeiro deste ano os cereais tenham começado a ser comercializados.
“As pessoas que tinham falta de comida para o gado estão a resolver o problema com a erva que já há no campo”, diz o dirigente, sustentando que “ou isto era uma medida de emergência para os agricultores em dificuldades, ou não serve para nada, porque teria de vir antes da campanha dos cereais (Agosto).”
Porém, o ministro da Agricultura, Jaime Silva, garante ter sido a própria CAP quem solicitou que os cereais da Hungria viessem mais tarde, uma vez que entre Outubro e Janeiro estariam a entrar em concorrência com o mercado nacional, sobretudo em relação ao milho, sendo que, apesar da seca, a produção ainda rendeu 580 mil toneladas em 2005.
Mas Luís Mira sustenta que essa questão apenas se colocava nos meses de Agosto e Setembro, sublinhando que “a partir daí podiam vir”.
O problema é que o Ministério da Agricultura não foi capaz de cá pôr os cereais durante esse tempo”, afirma, para sustentar que Portugal se limitou “a fazer um favor à Comissão Europeia, que estava a pagar o armazenamento do cereal na Hungria e deixou de ter essa despesa.”
A Comissão Europeia apoia a vinda para Portugal dos cereais à ordem de 60 euros por tonelada.
Os produtores do Baixo Alentejo, os mais afectados pela falta de chuva, são o maior exemplo do desinteresse do sector face aos cereais da Hungria, numa altura em que nenhuma das 16 associações da região fez qualquer oferta ao INGA.
“As pessoas estão sem dinheiro e precisam é de solidariedade de Bruxelas”, refere o dirigente da Federação de Agricultores do Baixo Alentejo (FABA), Sebastião Rodrigues, sugerindo que os cereais viessem para Portugal a “custo zero”. O mesmo dirigente revela que, em Ourique, a Associação de Criadores do Porco Alentejo – afecta à FABA – se “está a organizar” no sentido de tentar fazer uma oferta em próximas licitações.
Fonte: DN
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