O aumento do preço das matérias-primas a nível mundial, designadamente dos cereais, não vai ser travado tão cedo, nem há tendência para começar a baixar. A resposta passa pelo aumento da produção, também em Portugal.
“Portugal produz hoje um milhão de toneladas de cereais. Temos obrigação de chegar às 1,5 toneladas. O mercado está-nos a ajudar como nunca ajudou”, defendeu, ontem, o ministro da Agricultura, num seminário sobre “Flutuações dos preços nos mercados dos cereais”, que decorreu na Ordem dos Engenheiros, em Lisboa. Embora Portugal nunca vá ser auto-suficiente em matéria de cereais – no ano passado consumimos 3,8 milhões de toneladas -, Jaime Silva insiste que há condições para o aumento da produção e estima que, este ano, a resposta dos agricultores permita um crescimento de entre 20 a 30%.
Além do aumento das áreas de regadio, Jaime Silva garante que, no âmbito da renegociação da Política Agrícola Comum (PAC), vai bater-se pela manutenção dos mecanismos de apoio financeiro a estes produtores que, até 2002, receberam 185 milhões de euros/ano da União Europeia (UE). Apesar destes apoios – e do aumento do preço do cereal, que entre 2004 e 2008 praticamente duplicou em Portugal -, a verdade é que, segundo dados avançados por António Baião, da Confederação Nacional de Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola em Portugal, nos últimos 10 anos, a área semeada baixou 60% e a produção 23%.
Segundo Raul Jorge, professor do Instituto Superior de Agronomia, a actual escalada dos preços dos cereais deveu-se a uma “conjugação de factores desfavoráveis que não permitiram amortecer a crise”. Desde logo, a redução dos níveis de stock de trigo e milho da UE para os valores mais baixos dos últimos 25 anos, as condições climatéricas adversas em importantes países produtores (como a Austrália e o Canadá), as restrições à exportação em países como o Vietname, a Tailândia e o Casaquistão e a especulação nos mercados bolsistas (com os investidores a virarem-se cada vez para as matérias-primas), aliadas a um aumento da procura e do consumo em países em desenvolvimento, como a China e a Índia.
Por todas estas razões, Jaime Silva defende que a UE deve aprender com o que se passou e tomar medidas para evitar confrontar-se com “situações extremas” como a que está a viver.
“A UE não pode estar no fio da navalha entre o que produz e o que consome”, diz o ministro, garantindo que irá bater-se em Bruxelas pela revisão de algumas das propostas que estão neste momento em cima da mesa e pela manutenção de “um regime de intervenção que permita ter o mínimo de stocks de transição para fazer face a imprevistos”, como catástrofes climatéricas.
Fonte: Jornal de Notícias
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