“Queijo Serra da Estrela: que futuro” foi o tema de uma sessão de esclarecimento, inserida na Feira do Queijo. José Monteiro, autarca de Celorico da Beira, considerou ser este produto um elemento da cultura regional, de grande importância na economia do concelho e alertou que a burocracia dos diferentes processos levam que, no caso dos jovens que pretendam instalar-se nesta actividade, “esbarrem” com o andamento do processo e fiquem desmotivados.
Referiu, sem explicitar nomes, um processo que aguarda há quatro anos o licenciamento e dois anos e meio de um parecer, facto que lamentou. O edil celoricense entende ser necessário que a nível do Governo haja diálogo, com vista a acelerar e simplificar os processos de licenciamento de queijarias antes de lançar um diploma sobre esta actividade.
A criação de uma queijaria colectiva ou associativa no concelho de Celorico da Beira foi defendida por José Monteiro como forma de possibilitar que os pequenos produtores vendam o leite em vez de produzirem Queijo Serra da Estrela. Esta ideia foi também vincada por Artur Vicente, antigo técnico da Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral (DRABL) que, com Seara Pires, da congénere da Beira Interior, trabalharam na certificação de queijarias da área demarcada de produção de Queijo Serra da Estrela. Artur Vicente recordou que, há cerca de duas décadas, quando trabalhou “no terreno junto dos produtores”, foi alvitrada aquela hipótese. “Passados 20 anos, ainda se mantém em discussão”, sublinhou.
Por seu turno, Fernando de Matos, técnico e ex-director do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), evocou Vieira de Sá, um dos maiores especialista e investigadores sobre o Queijo Serra da Estrela, que afirmou ser “o Queijo Serra da Estrela uma riqueza abandonada à sua sorte”, sublinhando que, na actualidade, “há muitos produtores de leite e poucos produtores de queijo”. Como dado positivo, exemplificou a criação projectada para Folgosinho, no concelho de Gouveia, de uma queijaria colectiva para os pequenos produtores e apelou ao associativismo dos mesmos, como forma de “enfrentar a competitividade aproveitando também o último Quadro Comunitário de Apoio”.
No encontro, os produtores queixaram-se da burocracia e das imposições legais e “exigências que podem levar ao fim do Queijo Serra da Estrela”. Para além disso, o produto “não acompanhou a inflação, está mesmo mais barato do que há 20 anos, o litro do leite de ovelha puro é pago a um euro, os jovens não se interessam pela actividade e as barreiras são muitas para os produtores”.
“Ainda há queijo porque gostamos dos animais”
“Ainda há queijo porque nós gostamos dos animais, da terra”, referiu uma produtora, acentuando: “não temos apoio mas apenas imposições, falam-nos de leis e mais leis quando nem sequer temos tempo para ler ou ouvir rádio o televisão, enfrentamos gasóleo e adubos mais caros”.
João Madanelo, da ANCOSE, chamou a atenção para o facto de as regras de mercado se terem modificado e que, actualmente, “tudo está a passar pelas grandes superfícies comerciais”, pelo que preconizou, também, o associativismo para concentração da oferta e possibilitar a competitividade”. Observou ainda que, há 20 anos, o queijo não tinha certificação, nem rotulagem ou embalagem.
Na assistência, em que se encontravam investigadores, técnicos, jornalistas, escritores e autarcas, ouviram-se vozes contrárias ao “peso da burocracia e intromissão demasiada do Estado nas actividades como o Queijo Serra da Estrela que, além de ser uma actividade económica, é também um elemento único na identidade portuguesa e na sua cultura regional que não pode ser deixada ao desbarato”.
Houve mesmo quem se insurgisse contra o uso de “alumínios anodizados ou inox vindo da Alemanha ou França, azulejos importados de Espanha ou de outras origens em vez da preservação do tradicional que manteve até hoje a genuinidade do Queijo Serra da Estrela”. Celorico da Beira foi evidenciado por ser o concelho com o maior número de queijarias licenciadas (83) na área de produção do Queijo Serra da Estrela, seguido dos concelhos de Fornos de Algodres, Trancoso, Gouveia e Seia.
Fonte: Anil
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