Bufetes vendem tudo o que faz mal e engorda

Não há qualquer controlo do que é vendido nos bufetes das escolas, embora seja aí, e não tanto nas cantinas, que as crianças e os jovens comem mal e engordam. Apesar de a obesidade assumir em Portugal uma dimensão preocupante – estima-se que mais de 30% das crianças tenha excesso de peso -, não existem directivas específicas por parte do Ministério da Educação (ME) para combater o problema.

Nos bufetes e nas máquinas de venda de alimentos das escolas pode encontrar-se tudo o que faz mal e engorda bolos, chocolates, refrigerantes, folhados, snacks. Com muito açúcar, sal e gorduras. Bombas de calorias sem qualquer qualidade alimentar.

O JN questionou o ME sobre a existência de uma política alimentar que traduza a preocupação, já assumida pela Direcção-Geral de Saúde, de travar a epidemia da obesidade. Fonte do gabinete de Maria de Lurdes Rodrigues informou que as directivas existentes são “genéricas e antigas”, cabendo às direcções regionais de Educação definir as regras para as escolas sob a sua tutela, designadamente, quando concessionam o serviço de refeitório. A realidade é que, até agora, só tem havido a preocupação de regulamentar o que se serve nas cantinas, ficando os bares completamente à margem da lei.

Num despacho de 30 de Agosto último sobre o funcionamento dos bares, o ME autoriza as escolas que não têm cantinas a dispensar refeições ligeiras nos bufetes mas não define quaisquer critérios de qualidade. Também não existe qualquer lista do que pode ou não ser vendido, embora os médicos sejam unânimes quanto ao que as crianças devem ou não comer.

Ou seja, cada conselho executivo decide que produtos são servidos. Na prática, é quase tudo o que se vende em qualquer pastelaria, com a diferença que esses estabelecimentos não têm responsabilidade na educação das crianças.

A permissividade vigente é criticada por Luísa Guimarães, médica e nutricionista. “As refeições nas cantinas, com mais ou menos qualidade, contemplam sopa, um prato de carne ou peixe e uma sobremesa. O pior, em termos alimentares, não é isso. É o que os miúdos comem nos bares das escolas. Muitos nem vão ao refeitório, preferem comer dois folhados e beber um refrigerante a tomar uma refeição completa. E é isso que faz mal. E engorda.”

Contrariar esta tendência não é fácil, até porque a imagem associada à “fast-food” é mais atractiva do que um prato de comida saudável. “A publicidade com que as crianças são bombardeadas é feroz e enganadora. Não é verdade que um ‘donut’ seja ‘light’ ou que um chocolate seja a mesma coisa do que beber um copo de leite, mas é essa imagem que passa. É preciso desmontar a publicidade e as imagens que são passadas. Porque a verdade é que tudo isso faz engordar e uma criança gordinha é doente e marginalizada”, sublinha Luísa Guimarães.

Além de legislação adequada, é preciso investir na educação para a saúde. A começar logo na família. Se a criança tem hábitos saudáveis em casa, terá tendência para preferir alimentos equilibrados. O problema é que, muitas vezes, não é isso que acontece. Por falta de tempo ou informação, os pais optam frequentemente por fritos, pizzas congeladas ou refeições pré-cozinhadas. Sem sopa, saladas e fruta.

Na sua prática clínica, Luísa Guimarães constata que a crianças obesas correspondem, na maioria das vezes, pais com excesso de peso. “É uma oportunidade para educar toda a família. Porque é mudando os hábitos que se consegue perder e manter o peso”, explica a nutricionista, que recusa falar em dietas. “O importante é chegar a um acordo com a criança, que ela entenda o que lhe faz bem. Se ela perceber, muda os hábitos”, garante.

Regresso às aulas Comida na escola

Refrigerantes dilatam estômago das crianças

A Associação de Doentes e Obesos e Ex-Obesos de Portugal (Adexo) considera urgente a implementação do Programa Nacional de Combate à Obesidade que contempla, entre outras medidas, refeições equilibradas e acções de sensibilização nas escolas. Embora defenda que “toda a comida de pacotinho faz mal ou engorda”, Carlos Oliveira, presidente da associação, não preconiza proibições radicais. O que é urgente, em sua opinião, é lançar campanhas de sensibilização específicas e dirigidas a crianças. “É fundamental que os miúdos percebam que os refrigerantes dilatam o estômago para além do aceitável devido ao efeito do gás. Se a criança perceber o mecanismo do que lhe faz mal, retrai o consumo”, sublinha. O responsável da Adexo já participou em iniciativas que visavam explicar, de forma simples e directa, como certos alimentos engordam e garante que os resultados são animadores. Além destas acções, defende a necessidade de os estabelecimentos de ensino servirem refeições que sejam simultaneamente saudáveis e atractivas, para evitar que os alunos se empanturrem de doces no bar da escola ou no café da esquina.

Fonte: JN

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