BSE poderia ter sido minorada

O ex-europdeputado António Campos foi das primeiras pessoas em Portugal a alertar para o perigo da BSE. Em 1993, na Assembleia da República, quando ainda todos negavam a existência da doença. Dois anos depois transferiu a sua luta para o Parlamento Europeu. Acredita que, se se tivessem tomado medidas atempadamente, as consequências teriam sido menores.

Que interesses moviam os Governos, primeiro o do Reino Unido e depois Portugal e outros países da Europa, em esconder a existência da BSE?

Interesses ligados ao comércio da carne. Não só os produtores, como também os talhantes. Os governantes estavam mais preocupados com os negócios do que com a saúde pública. A questão era gravíssima do ponto de vista científico. Tratava-se de uma doença desconhecida, mas que representava riscos para a saúde pública. Isso era uma evidência, a partir do momento que passou a barreira das espécies. Mas havia ainda outros interesses, os dos produtores de farinhas de carne, que vendiam as rações ao preço da chuva.

É grande o poder desses lobbies?

É. Por outro lado, estavam também os governos. Em Portugal, depois de ter tentado que se tomassem medidas, acabei por tornar pública a doença. Era uma luta desigual. O ministro da Agricultura de então, Arlindo Cunha, desvalorizou a questão e Cavaco Silva chamou-me louco, num debate na Assembleia da República, e mesmo no meu partido, no PS, a situação foi confusa. Cheguei a ter que andar com escolta, as ameaças eram constantes. Mas não foi só em Portugal. No Reino Unido, (a então primeira-min istra Margaret) Tatcher comprou as associações de consumidores para estarem caladas e foram dadas ordens para silenciar todas as investigações. O problema também existia em Espanha, que também o encobriu, e em França, que importava rações para depois exportar.

O tempo deu-lhe razão…

É verdade. Em 1993, diziam que estava a levantar um problema quando só tinham aparecido quatro vacas doentes. Claro que não havia rastreios. Depois foram abatidos milhares de animais. Sofremos o embargo, e fomos mesmo o segundo país com o maior número de casos de BSE. Consequências que podiam ter sido evitadas, se se tomassem as medidas a tempo. É bom não esquecer que as medidas de erradicação em toda a Europa só foram implementadas em 1998. E só há um controlo rigoroso do material de risco a partir de 1996.

Subsiste o problema do armazenamento das farinhas.

Foram armazenadas com algum descontrole, e a circulação desse material também não foi feito nas melhores condições. A única solução para esse material passa pela co-incineração, que não representa qualquer risco para o ambiente. Com a incineração prião, causador da BSE também não resiste, mas para as questões ambientais não é a melhor solução.

Interesses ligados ao comércio impediram que se tomassem medidas mais atempadamente

Fonte: JN

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