É tempo de regular a negociação das matérias-primas agrícolas, a bem da soberania alimentar e para evitar a especulação financeira, alertam os produtores. “Enquanto forem os investidores na bolsa a fazer a chuva e o bom tempo, o problema não se resolve”, desabafa Luís Marques.
O administrador da empresa Atlantic Meals, agro-alimentar dedicada ao arroz, é da opinião que enquanto a negociação das matérias-primas estiver indexada “à especulação” e “à massa monetária de alguns fundos, que rivalizam com os PIB de alguns países”, a lógica não vai imperar.
Pelo menos a lógica da real oferta, física, e da procura. Uma situação que defende como “insuportável e que não pode durar muito tempo”. “Há que haver vontade dos governos” para regular a negociação sobre produtos alimentares, defende o gestor. Porque se é legítima a negociação pelos investidores também é verdade, sublinha, que “a mais-valia para o mercado é de zero”.
“Tem de haver algum tipo de regulação do mercado” e essa “regulação é tão urgente como a do sector financeiro”, acredita Pedro Queiroz, director-geral da FIPA – Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares. “Portugal tem que ter a noção de soberania alimentar”, sobretudo porque o País é “altamente dependente” de matérias-primas alimentares. Como não estima que “dentro de dois a três anos” a situação volte a ser de acalmia nos preços, acredita que esta “grande especulação” em torno do que é necessário para produzir comida “deve ser tido em atenção na negociação da política agrícola pós-2013”. Aliás, destaca, ao contrário da crise de há três anos, são hoje as preocupações da FAO que lideram o debate.
Bom senso à mesa
Sobre a possibilidade de a produção poder passar o encarecimento dos custos das matérias-primas à distribuição, o director-geral da entidade que representa o agro-alimentar no País afirma que “tem de haver bom senso na fileira”. Porque se não houver, alerta, “o risco que corremos é de deixar de ter produção nacional”.
Pão azedo
Redução de 10 mil para mil empresas de panificação é o que Carlos Alberto dos Santos, presidente da associação do Comércio e da Indústroa de Panificação contabiliza já na última década. O aumento de uma média de 240 a 260 euros por tonelada de trigo no início do ano, para 370 a 400 euros/tonelada em Dezembro não está ajudar um sector que está “descapitalizado”, e que viu a concessão de financiamento bancário ser cortada desde 2008. Garantido é o aumento de “10% a 12%” do pão aos consumidores já em Janeiro. E, internamente, o sector vai negociar o congelamento dos salários, avança.
Bife bem passado
Também Jaime Piçarra vê mudanças entre a crise alimentar de 2007/2008 e agora. Mas para pior. Há três anos, afirma o secretário-geral da IACA, os industriais de alimentos compostos para animais serviam sobretudo de “almofada” aos produtores de carne. Agora, os produtores de rações acabam por tornar-se “bancos da produção pecuária”, com consequências no fornecimento de carne, ovos e leite.
Explica: entre as dificuldades (ou mesmo inexistência) de fundo de maneio, as resistências dos bancos em ceder mais crédito e as dificuldades de pagamento aos fornecedores, Jaime Piçarra acredita que os produtores de rações têm a noção da “situação de asfixia” em que vivem muitos produtores agro-pecuários. “Não sei quantas empresas terão que fechar até ao final do ano” diz, mas tem esse dado como certo.
É essencialmente pela via do encarecimento da produção animal que Pedro Pimentel vê a pressão recair sobre a produção de lacticínios. Leite é das poucas (senão a única) matéria-prima alimentar em que Portugal é auto-suficiente, aliviando da relação directa com os mercados internacionais. Isso, contudo, não descansa o secretário-geral da Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios.
Mas também aqui a indústria receia a pressão sobre a produção, que na última década sofreu uma redução de 80 mil para 10 mil produtores. “A certa altura”, confrontados com a subida de custos, “as empresas realmente não têm onde abrigar-se”. E quem não abandona a actividade já não volta.
Mundo caminha para nova crise alimentar
As Nações Unidas alertam que o preço das matérias–primas agrícolas está a subir a um ritmo “alarmante”, e que se aproxima do pico de 2008. Há fortes aumentos nos cereais, e a carne está já num máximo histórico. O impacto em Portugal vai depender da evolução do euro.
A História pode, em breve, repetir-se. Os preços dos cereais dispararam nos últimos meses, aproximando-se dos recordes atingidos em 2008, no pico da crise alimentar. E em 2011 deverão continuar a subir, a “não ser que a produção global de cereais aumente significativamente”. A previsão é da Organização para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO).
O índice da FAO para 55 matérias-primas alimentares atingiu no início de Dezembro o nível mais elevado desde Julho de 2008, auge da última crise alimentar, após cinco meses consecutivos em alta. A organização da ONU explica que este aumento está ligado a diversos factores, mas destaca “a revisão em baixa das previsões de colheitas nos principais países produtores”. A FAO alerta que, por esta razão, “os preços mundiais das matérias-primas agrícolas têm subido a um ritmo alarmante e muito mais rápido do que em 2008”.
Carne, milho e arroz contam-se entre os bens alimentares sob maior pressão. E, no próximo ano, os preços vão continuar a subir. O Barclays Capital recomenda o investimento no milho, no “outlook” global para 2011, divulgado ontem. O cereal terá uma pressão altista devido aos inventários extremamente apertados, à queda da produção nos EUA e a uma maior procura por parte da China. Segundo o mesmo relatório, “o aumento da procura põe as matérias-primas a caminho de marcarem novos máximos históricos este ano e no próximo”.
O arroz, que em 2008 esgotou em supermercados de todo o mundo, também está de novo na ribalta. De acordo com a FAO, a produção mundial de arroz será inferior ao previamente estimado, dado que as colheitas se deterioraram na Ásia, devido à seca e a inundações. O índice global da FAO para a carne está em máximos históricos. Causa: a nova classe média nos países emergentes procura uma dieta mais rica em proteínas. Logo quer mais carne.
Este aumento da procura num contexto de melhoria da situação financeira de algumas populações de grande consumo, como a China, de par com uma queda das produções, cria uma forte pressão entre a oferta e a procura. O petróleo é outro factor de encarecimento das “commodities” agrícolas, uma vez que os seus derivados são utilizados na maquinaria agrícola e nos transportes.
A crise alimentar, teve início em 2007 e se prolongou até ao primeiro semestre de 2008, caminhou de par com a escalada dos preços do crude. A 11 de Julho de 2008, o “ouro negro” atingiu máximos históricos, acima dos 147 dólares por barril. Depois da forte correcção até ao início de 2009, subiu entretanto para os 90 dólares. Infelizmente, é possível haver uma nova crise alimentar, se os preços continuarem a subir”, avisa Thomas Azwell, professor de ambiente da Universidade de Berkeley e um dos membros da equipa de Barack Obama que investiga o derrame da BP no Golfo do México.
Em Portugal, a crise alimentar de 2008 não teve os efeitos sentidos, por exemplo, no Reino Unido, onde alguns produtos alimentares chegaram a faltar nas prateleiras dos supermercados. Ainda assim, registou-se uma subida no preço do cabaz alimentar.
Portugal vunerável a aumentos
O aumento poderá voltar a ocorrer em 2011, caso se registe uma diminuição da oferta de produtos agrícolas. Para Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI, esta é uma hipótese “provável”, mas os impactos em Portugal vão depender do comportamento do euro face ao dólar (ver caixa ao lado), uma vez que o País importa grande parte destas matérias-primas. Este ano, a divisa europeia está a perder 7,7%.
Cristina Casalinho acredita que o impacto na taxa de inflação será reduzido, já que os produtos alimentares têm um peso “bastante pequeno” (16%) no IPC. Ainda assim, num ano que se avizinha difícil para as famílias portuguesas, com a subida do IVA e a diminuição da massa salarial, a subida do preço dos alimentos é mais um factor de preocupação, principalmente para os lares com rendimentos mais baixos.
OGM requerem “política única”
“Hipócrita”, é como Jaime Piçarra, secretário-geral da IACA qualifica a política de Bruxelas sobre os organismos geneticamente modificados (OGM). Não é uma questão de advogar o seu uso, justifica, é uma questão de coerência. Se os órgãos de decisão da UE querem ser exigentes quanto à introdução no cultivo e no comércio de produtos geneticamente modificados, devem fazê-lo. Mas, sublinha, devem então estender esse grau de exigência também a todos os bens finais ou para processamento industrial que vêm de países terceiros para o espaço comunitário.
“Deve haver uma política única”, defende Jaime Piçarra, que recorda que os maiores concorrentes da UE em matérias-primas – EUA, Brasil e Argentina – são igualmente os maiores concorrentes da UE em produto final pronto a consumir. A diferença é que a concorrência permite os OGM – no caso dos EUA, é uma opção de há anos. E, em termos de consumo, a legislação norte-americana não requer, ao contrário da europeia, a menção de utilização de OGM em nenhum dos elos da produção.
Um ponto em que a Monsanto, grupo dos EUA líder mundial na produção de sementes geneticamente modificadas, concorda parcialmente. “A assincronia nas aprovações de cultivos biotecnológicos entre a UE e os principais produtores de “commodities” agrícolas do mundo”, explica Carlos Vicente, “provoca uma situação de incerteza e risco de ruptura da cadeia alimentar no acesso das matérias-primas necessarias para a produção alimentar”.
Para o director de biotecnologia da Monsanto para a Península Ibérica, “infelizmente na UE a biotecnologia agrícola tornou-se um debate ideológico – e não científico, com deveria”. Convicto de que as culturas biotecnológicas “são tão seguras como as convencionais”, acredita que a biotecnologia “é parte da solução” para os “problemas da produção de alimentos”, da qual “não podemos prescindir”.
Fonte: Anil
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