Uma conserveira galega comprou a Portugal 23 toneladas de berbigão contaminado. Presença de biotoxina Psp, das mais prejudiciais para a saúde, não terá sido detectada. Pescadores responsabilizam Ipimar e reclamam mais análises aos bivalves.
“Aconteceu-nos em Setembro enviarmos uma quantidade grande, à volta de 23 toneladas, de berbigão pescado (nos dias 9 e 10) na ria de Aveiro para a indústria conserveira da Galiza, que, por acaso, fez análise de rotina e detectou que estava tudo contaminado”, revelou, ao “Jornal de Notícias”, Francisco Portela Rosa, assessor da Vianapesca, cooperativa de Viana do Castelo que tem associados os 12 barcos de pesca industrial de bivalves, com licença na zona Norte, e mais cerca de 400 pescadores, dos 460 da Ria de Aveiro.
De acordo com este responsável, a empresa galega “Conservas do Noroeste – Connorsa”, a quem foi vendido o berbigão contaminado com a biotoxina Psp, recusa-se a pagar o produto e reclama, nesta altura, indemnizações por prejuízos da ordem dos 47 mil euros aos comerciantes portugueses (depuradoras Francisco Resende e Rosa Pinho) que intermediaram o negócio.
E estes, por sua vez, pretendem ser ressarcidos dos 23 mil euros pagos pelo produto aos pescadores que, em defesa própria, responsabilizam o Instituto de Investigação das Pescas e do Mar (IPIMAR).
“A lota também não fez o seu trabalho porque, por sua vez, o Ipimar não deu indicação contrária para que não se fizesse a captura”, refere Portela Rosa, comentando que deste incidente resultou que “a Junta da Galiza mandou analisar em todas as depuradoras todos os produtos portugueses e instituiu uma rotina de análise constante a todos os produtos que vem de Portugal”.
“O Ipimar nem sequer se meteu, nem quer saber”, lamenta. O JN contactou o Ministério da Agricultura e Pescas, pedindo esclarecimentos sobre a questão, mas não obteve resposta.
“Para nós, tudo isto é mau, porque se o Ipimar fizesse o trabalho que é obrigado a fazer, este problema não se tinha levantado, porque se tinha detectado antes e a pescaria estava fechada”, critica Portela Rosa, referindo que na origem do incidente, que colocou o mercado galego em estado de alerta em relação ao produto português, está o facto de o Ipimar ter deixado de efectuar recolhas de amostras de bivalves, estando agora essa tarefa a cargo dos pescadores que as entregam em Matosinhos, para depois seguirem para Lisboa, onde são feitas análises, o que torna o processo demasiado “demorado”. “Está em causa a saúde pública. Isso pode provocar que nesse período, de três, quatro ou mais dias, nós continuemos a pescar e a introduzir no mercado berbigão ou amêijoa, que já tinham resultado negativo”, explica, referindo que na altura em que o Ipimar se responsabilizava integralmente pela análise às biotoxinas em bivalves “o resultado era conhecido em 48 horas”. O assessor da Vianapesca considera ainda ser “demasiado longo” o espaço de tempo entre cada análise: “A periodicidade, como fazem em Espanha, deveria ser de duas vezes por semana, para termos garantia do que é que o consumidor está a comer. Em Portugal estão a fazer uma só análise e porque somos nós que fazemos a colheita”.
“Queremos análises feitas em Matosinhos e não em Lisboa”
José Manuel Moça, 54 anos, pescador de amêijoa branca em alto mar há cerca de 30 anos da zona das Caxinas, é porta-voz do sentimento de revolta entre a classe devido aos entraves relativos à forma como têm sido feitas as análises aos bivalves. “Nós queremos as análises mais rápidas e aqui no porto (de Matosinhos), não é em Lisboa, porque isso demora uma semana”, queixa-se, considerando que o Ipimar “não quer responsabilidades” porque quando aparecem bivalves contaminados numa das zonas de pesca “fecha tudo”. Os pescadores de alto mar dizem-se prejudicados pelo caso da exportação do berbigão contaminado, porque foram obrigados a parar: “Quando a Ria de Aveiro tem toxinas, o Ipimar acha que o mar também tem e fecha tudo, mas nós não temos nada a ver”.
Fonte: Jornal de Notícias
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