Barcos de grande porte ameaçam pesca tradicional

“Quando deixarmos de poder pescar por causa do regulamento do Parque Marinho, não vamos achar grande diferença, pois os pescadores mais pequenos já não têm hipótese de pescar quase nada. Os barcos com covos têm assassinado o mar todo”. O desabafo de António Sanches, de 78 anos, proferido junto à sua aiola – embarcação de madeira com menos de quatro metros -, no Porto de Sesimbra, é acompanhado por acenos de cabeça em concordância de António Silvestre, de 69 anos, e de Luciano Loureiro, de 39.

O mar que os alimentou toda a vida, e às suas famílias, há muito que já não lhes pertence, afirmam, acusando a pesca com covos – aparelho para apanhar polvos, composto por uma corda onde são presas gaiolas, estendidas ao longo da baía – de estar a destruir a pesca artesanal “Os covos apanham tudo e têm contribuído para destruir a pesca em Sesimbra. Além dos covos, esses barcos levam ainda redes, o que não deixa peixe para mais ninguém”.

Essa arte da pesca com covos, que substituiu os alcatruzes – em barro e com uma abertura permanente de onde os polvos podiam fugir e que, caso se perdessem no mar passavam a ser utilizados como toca e ninho – é, para os proprietários das aiolas, um flagelo. Do mar, chega uma aiola. Luciana Loureiro grita, perguntando o resultado da pescaria. “Quase nada”, é a resposta. António Silvestre frisa que, “se correr o mar até 100 braças, 150 metros de altura, desde a baía de Sesimbra, uma pessoa só vê cordas e redes tudo pegado”.

Os proprietários das aiolas queixam-se ainda da caça submarina. Isto porque, segundo Luís Loureiro, “ao pé do farol é proibido pescar à linha, mas há pessoas que passam a noite inteiras ao lado, no fundo do mar, a apanhar tudo o que mexe”.

O desencanto entre os pescadores artesanais de Sesimbra, que procuram na pesca um complemento para as suas parcas reformas, é grande. Uma das imagens mais tradicionais da denominada vila piscatória poderá ter os dias contados, até porque os proprietários das aiolas são idosos.

Lançados 21 mil covos frente à vila

Dionísio Machado, presidente da Associação de Armadores Centro-Sul, proprietário de uma embarcação que se dedica à arte da pesca com covos e redes, confrontado com as críticas dos pescadores artesanais, não teve dúvidas em afirmar que “essas acusações têm fundamento, pois há muitos pescadores que usam covos a mais”.

O grande problema, adiantou, “é que os pescadores das aiolas têm cada vez menos espaço para irem ao mar e a verdade é que o mar é de todos”. Por lei, refira-se, cada embarcação da pesca com covos poderá ter um máximo de 500 aparelhos, sendo que em Sesimbra, e segundo este responsável, existem 42 destas embarcações. Contas feitas, são lançados ao mar frente a Sesimbra um total de 21 mil covos, isto se todos lançarem apenas o máximo permitido por lei.

Há mais de 150 aiolas em Sesimbra, das quais apenas cerca de 50 com licença.

Fonte: JN

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