A alta no preço dos alimentos no mercado mundial deverá “nos próximos três a quatro anos” e colocar abaixo da linha de pobreza “pelo menos 100 milhões de pessoas”, previu hoje o vice-presidente do Banco Mundial Danny Leipziger.
“Trata-se de uma das principais preocupações a nível mundial. Os preços de alguns alimentos duplicaram, nos próximos três a quatro anos manter-se-ão elevados e não vão voltar aos níveis que tinham anteriormente”, disse o responsável do Banco Mundial (BM) no debate sobre “Preços dos alimentos e segurança alimentar” que hoje teve lugar na conferência da organização sobre desenvolvimento, a ter lugar na Cidade do Cabo, África do Sul.
A persistência na alta de preços dos alimentos nos próximos anos foi, de resto convicção expressa por todos os participantes no debate, que convergiram noutra ideia: a da inutilidade das respostas clássicas para responder à actual crise.
“Esta crise é diferente de todas as outras que temos visto e não há soluções na gaveta. É uma crise diferente e cria uma mudança estrutural”, considerou Sheryl Hendricks, responsável do Centro Africano de Segurança Alimentar e especialista em Ciência Agrícolas da Universidade sul-africana de Kwazulu-Natal.
Para a investigadora, a actual crise difere das que surgiram no passado por resultar da confluência de um aumento na procura de alimentos e pelo crescimento das culturas associadas à produção de biocombustíveis, a alta no preço da energia, um dos factores associados à produção e transporte, e o abrandamento económico nas principais economias do mundo.
“As causas são complexas e relativas ao nível macro e micro e, por isso, as respostas tradicionais não vão funcionar. É preciso um pensamento novo e uma combinação e um balanceamento apropriado de políticas”, defendeu, acrescentando como exemplo dos constrangimentos actuais o facto de a movimentação de alimentos se ter tornado “muito cara por causa do aumento do preço dos combustíveis”.
No curto prazo, considerou, será necessário “proteger os mais vulneráveis” promovendo medidas que proporcionem por parte destes “um acesso directo aos alimentos”.
Para o longo prazo, no entanto, “a resposta é o aumento da produção agrícola”, em especial em África através da concessão de incentivos aos pequenos produtores.
A mesma opinião foi expressa por Lesetja Kganyago director-geral do Tesouro sul-africano, para quem só é possível saber à partida o que não vai funcionar para enfrentar a actual crise: controlar preços, limitar as exportações – “seria cair na armadilha dos países ricos, que justificam os subsídios à sua agricultura por razões de segurança alimentar”, disse -, dar dinheiro.
“Sabemos o que não funciona. Agora, o que é que pode funcionar? Acho que não há uma solução ajustável em simultâneo a todos os países, é preciso soluções adaptadas e soluções globais, porque este é um problema global”, comentou.
Arvind Subramanian, do Peterson Institute norte-americano, concordou no diagnóstico e sugeriu que para resolver a actual crise é preciso que os líderes mundiais comecem a “pensar para lá de Doha” (Ronda da Organização Mundial de Comércio que decorre desde 2001, destinada a aprofundar a liberalização do comércio mundial e “encalhada”, entre outras, na questão agrícola).
Fonte: Agroportal
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