Baixa de preços não convence consumidores

Os bens alimentares estão mais baratos do que há um ano. O peixe, por exemplo, custava em Março quase menos 6 por cento, enquanto a carne caiu 0,4 por cento. É a primeira vez desde a década de 60 que o INE regista uma inflação homóloga negativa. E tudo graças à queda dos preços dos combustíveis.

Este valor historicamente baixo não apanhou, no entanto, os economistas de surpresa. “A explicação é o efeito-base dos preços do petróleo”, dizem. É que no ano passado, por esta data, os preços no consumidor estavam mais altos porque os custos da energia – barril de petróleo – batiam recordes diários. Em Março do ano passado, o brent chegou a ser cotado em Londres nos 101,96 dólares o barril; no mesmo mês deste ano o crude do mar do Norte – o tipo de petróleo que Portugal importa – estava a ser transaccionado nos 47,41 dólares.

E a descida só não foi mais acentuada por causa do agravamento da electricidade e do pão, assim como ao desacelerar da queda dos preços do vestuário, em resultado da entrada das novas colecções Primavera-Verão.

Mas nem mesmo com os preços dos produtos e dos serviços mais baratos (menos 0,4 por cento em relação a Março de 2008), as famílias deverão gastar mais em consumo. “A queda das taxas de juro e os aumentos salariais dos funcionários do Estado criaram uma folga nos orçamentos, mas as pessoas estão preocupadas com a crise e o desemprego”, confessam os economistas.

“Há claramente sinais de cautela” por parte dos consumidores, existindo riscos de “uma ligeira queda do consumo”, afirma Carlos Andrade, economista-chefe do Banco Espírito Santo (BES). Teresa Gil Pinheiro, do gabinete de estudos do BPI, refere o “pessimismo” dos consumidores e antecipa um crescimento de apenas 0,4 por cento do consumo das famílias, uma forte desaceleração face ao crescimento de 1,6 por cento em 2008. “O aumento do desemprego deverá pressionar em baixa o consumo privado”, diz Rui Serra, economista chefe do research do Montepio Geral.

Por tudo isso, os preços deverão continuar a cair nos próximos meses, “sem que isso signifique uma deflação”, afirmam os analistas. “Sem a componente energia os preços no consumidor cresceram 0,9 por cento em Março”, destaca o economista Carlos Andrade, do BES. Para que estivéssemos em presença da deflação, “a queda generalizada dos preços teria de ser repetida e mais vasta em termos sectoriais”, afirma Rui Serra. “É expectável que nos próximos dois ou três meses a inflação homóloga continue a ser negativa”.

Na parte final do ano – à medida que o efeito-base desapareça – deverá ressurgir a inflação. Mas, ainda assim, o aumento generalizado dos preços deverá ser contido. Desta vez não será a queda do barril de petróleo, mas a fraca procura das famílias a obrigar a oferta a cortar nos preços, “muitos deles de carácter promocional”, como destacam os analistas.

Fonte: Anil

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