Aves migratórias não são ameaça de gripe

A aproximação da época de passagem por Portugal de aves migratórias vindas do Norte da Europa e do Extremo Norte da Ásia não deverá aumentar a ameaça da chegada da gripe das aves à Europa. Apesar de haver casos de aves migratórias contaminadas com H5N1 na Ásia Central (onde a doença já fez dezenas de mortes em humanos) e de essa estirpe de gripe aviária ter chegado a explorações na Rússia, de onde migram várias espécies, os especialistas apostam na mensagem de tranquilidade uma ave doente não tem força para migrar.

A questão começou a preocupar as autoridades sanitárias internacionais – que preparam respostas a uma eventual pandemia de gripe humana a partir da mutação do H5N1 das aves – após a confirmação da infecção de dezenas de gansos selvagens na região ocidental chinesa de Qinghai, em Abril. A que se soma também a infecção de uma cegonha de bico aberto na Tailândia, uma gaivota prateada e um falcão peregrino em Hong Kong. A ideia de que as aves migratórias estariam na origem desta pandemia de gripe das aves foi, contudo, rapidamente posta de parte.

“Chegou-se à conclusão de que os surtos de gripe aviária (do H5N1 ou outros) não coincidiam com as alturas de migração”, explica Hélder Costa, presidente da Sociedade Para o Estudo das Aves (SPEA). Os gansos infectados detectados na China morreram pouco depois de chegarem da travessia dos Himalaia, mas cientistas de vários quadrantes que se debruçaram sobre o caso consideram pouco provável que o vírus fosse trazido das zonas onde passaram o Inverno. Segundo a Birdlife International, as condições em que as aves foram encontradas “sugerem que tenham estado em contacto com aves domésticas infectadas ou com dejectos desses animais”.

“Estavam mortas ou moribundas”, acrescenta Hélder Costa, o que não se coaduna com aves em migração, porque “precisam de boas condições físicas para aguentar viagens longas” e sem paragens, antes das quais têm de engordar bastante. O biólogo lembra, aliás, a campanha de abate que a Tailândia quis levar a cabo entre as cegonhas de bico aberto, mas acabou por suspender. Em causa estão antes as condições de cativeiro em que são mantidas as aves domésticas, perto das quais as selvagens têm por hábito alimentar-se, diz Hélder Costa,.

Importações proibidas

O alargamento da proibição europeia de importação de aves ou penas à Rússia e ao Cazaquistão prende-se apenas, explica o presidente da SPEA, com precaução. E o facto de não se ter levantado a questão do eventual risco das migrações prova, no seu entender, que “não haverá motivos para alarme”. Porque “todos os países europeus recebem aves selvagens dessa região” (ver caixa).

Carol Cardona, veterinária da Universidade da Califórnia referida no site da Birdlife International, explica a letalidade do H5N1 não só por poder infectar humanos (embora ainda não haja provas de casos de transmissão entre homens, o que indica que o vírus ainda não sofreu mutação para consegui-lo), mas por deixar as aves selvagens “doentes”. As espécies migratórias, hospedeiras de estirpes pouco patogénicas de gripe aviárias, não sobrevivem a esta e “não voarão longe”. O problema reside sobretudo no facto de poderem ser transportadas. “Nunca se deve subestimar a capacidade do homem em movimentar uma doença”.

Insistindo na necessidade do estudo aprofundado dos casos de gripe entre aves selvagens, a Birdlife International alerta para outro risco a caça e a manutenção em cativeiro de aves selvagens, bem como a sua venda em mercados, pode aumentar a disseminação da doença se uma delas estiver infectada. E embora nada indique que as aves que por cá passam possam funcionar como vector do H5N1 desde a Ásia, muitas delas fazem parte dos calendários venatórios europeus.

Ouvido pelo JN, o director-geral da Saúde, Francisco George, garantiu a coordenação com as autoridades de veterinária, incumbidas da vigilância das aves. Sem preocupações.

Fonte: JN

Veja também

Consumo de café aumenta resposta ao tratamento da hepatite C

Os pacientes com hepatite C avançada e com doença hepática crónica que receberam interferão peguilado …