Aumento no bacalhau

A maior parte do bacalhau que há-de ser servido à mesa dos portugueses na Consoada já está em território nacional, pelo que já é possível antecipar que o ‘fiel amigo’ vai sofrer aumentos de preço, entre os 50 cêntimos e um euro no preço de quilo. Isto quer dizer que, tomando por regra o hábito de adquirir tamanhos grandes (graúdo e especial), o aumento pode reflectir-se em cerca de três a cinco euros por peixe.

Vários armazenistas, contactados pelo CM, referem que, apesar do aumento se situar entre os cinco e os dez por cento em relação aos preços actuais, “esta é uma subida normal e esperada para a época”. Os mesmos interlocutores adiantam ainda que também eles estão a comprar o produto mais caro e dão como exemplo a Noruega, cujos preços de exportação registaram um aumento médio de três por cento, em relação a igual período do ano passado.

PREÇOS DIFERENTES

Os consumidores que fazem as suas compras nos grandes centros urbanos, ou nos hipermercados, compram, por norma, o bacalhau mais barato. Enquanto que os primeiros beneficiam da maior oferta, os segundo acabam por comprar produto que vem directamente da indústria transformadora, sem passar pelos armazenistas.

Há o caso de uma cadeia de distribuição alimentar em Portugal que compra o bacalhau (produto acabado) directamente ao exportador da Noruega, podendo assim ser mais concorrencial nos preços.

Os donos das mercearias e casas da especialidade alertam que “o preço não é sinónimo de qualidade” e lembram aos consumidores: “Quem quiser um bom peixe tem de saber aconselhar-se e estar disposto a pagar um pouco mais.”

Portugal continua a ser o maior consumidor de bacalhau salgado seco do mundo – com uma média anual por português de 6,5 quilos –, mas a crise está a alterar estes hábitos nacionais. Os armazenistas garantem mesmo que há quebras significativas nas vendas durante os últimos meses e que o único segmento que tem subido ligeiramente na procura é o dos tamanhos pequenos (corrente e crescido), que depois do último aumento subiram entre um e dois euros, no preço de quilo.

Quanto a perspectivas para as vendas de Natal, altura em que os portugueses costumam abrir os cordões à bolsa, quem vive do comércio de bacalhau é cauteloso. Fernando Carvalho, da Feira do Bacalhau, no Porto, acredita que “os preços acabam sempre inflacionados nesta altura, mas mesmo assim as pessoas arranjam forma de comprar, porque a tradição pesa mais”.

Já Aníbal Carvalho, armazenista da Grande Lisboa, avalia o estado do negócio com um dado curioso: “Por esta altura, noutros anos, podia estar a embalar 400 a 500 bacalhaus por dia para as empresas oferecerem aos funcionários. Este ano ainda não tive um único contacto para essas ofertas.”

INDÚSTRIA DA SECA NEGA CRISE

A entrada em Portugal de uma maior quantidade de bacalhau salgado seco, como produto acabado proveniente da Noruega, não preocupa os industriais portugueses. Quem o afirma é António Meireles, presidente da Associação dos Industriais de Bacalhau (AIB), que adianta não haver crise no sector.

“A seca de bacalhau não acabou, nem vai acabar, porque temos uma indústria activa, moderna e competitiva. A procura de novos produtos e mercados é disso exemplo”, refere. De acordo com dados da AIB, existem em Portugal 42 unidades industriais, licenciadas para a transformação e processamento, que empregam, de forma estável, 2500 trabalhadores directos.

Esta é, no entanto, uma realidade completamente diversa da que existe na Noruega, onde actualmente trabalham cerca de 12500 pessoas na indústria de transformação, a operar com mercados de todo o mundo, processando centenas de milhares de toneladas de bens alimentares da pesca.

António Meireles desdramatiza ainda os dados que apontam a Noruega como grande concorrente na secagem de bacalhau e adianta que “as indústrias nacionais estão neste momento a processar cerca de 37500 toneladas/ano, contra as 26500 que entram já como produto acabado”.

DIFERENÇAS NO BOLSO

HÍPER/MERCEARIA

As grandes superfícies apresentam preços, em média, mais baixos cerca de 30 por cento, em relação às mercearias e casas da especialidade. A diferença está muitas vezes na ‘poupança’ de um elo da cadeia, ao adquirem o produto directamente da indústria ou dos exportadores.

PROVENIÊNCIA

Também a origem do bacalhau pesa nos preços finais. Actualmente, o mais caro é o da Islândia, que em relação à Noruega pode custar em média mais 3 euros em quilo. O bacalhau mais barato é o do Pacífico (‘gadus macrocephalus’), mas existe uma diferença substancial para o ‘gadus morhua’, originário do Atlântico Norte.

Fonte: Correio da Manhã

Veja também

Consumo de café aumenta resposta ao tratamento da hepatite C

Os pacientes com hepatite C avançada e com doença hepática crónica que receberam interferão peguilado …