Aumento dos custos não chega à prateleira

O aumento do preço dos cereais fez disparar em dez por cento os custos de produção no sector do leite e da carne, mas os produtores não têm esperança de ver reflectida essa subida no preço que é cobrado ao consumidor nas prateleiras do supermercado.

Contactadas, as principais cadeias de distribuição argumentam que as oscilações da matéria-prima não alteram a orientação estratégica de oferecerem os preços mais baixos do mercado. Apesar dos apelos dos produtores, cadeias como a Jerónimo Martins (Pingo Doce) não vêem “razões objectivas para tanta especulação à volta do comportamento dos preços”. Fonte oficial da empresa garante estar confiante que “ao final do ano estes bens não sofrerão alterações”.

Por seu lado, a Sonae (Continente e Modelo) garante que não altera o seu posicionamento de “oferecer os melhores preços” no cabaz de produtos mais relevante para os seus clientes. Também o grupo Auchan diz que mantém o “compromisso de ter os preços mais baixos nas regiões” onde está instalado.

Foram as más condições climatéricas que condicionaram a campanha cerealífera de 2009. Por cá, o volume de produção caiu cerca de 23 por cento face ao ano anterior, mas o valor final do produto colhido recuou cerca de 40 por cento. Na Rússia, terceiro maior produtor de cereais do mundo, a pior seca dos últimos 50 anos e as fracas colheitas fizeram aumentar o preço do trigo em 62 por cento desde Junho. As exportações foram canceladas até Dezembro.

A reacção é em cadeia: a subida do preço dos cereais e a escassez de oferta tem impactos directos no preço do pão, da cerveja, até no das rações para animais. Fernando Cardoso, secretário-geral da Fenalac, diz que desde Junho as rações aumentaram, em média, entre seis e oito por cento. Depois de um ano sem grandes alterações de preços, as empresas do sector decidiram pagar mais 1,5 cêntimos por litro aos produtores, “num esforço para garantir a sua sustentabilidade”.

“A Fenalac está a remunerar mais a matéria-prima aos produtores mas não temos nenhuma garantia de ver reflectido na distribuição esses custos”, afirma. Fernando Cardoso acrescenta que desde Julho tem havido grande pressão para que o aumento de um ponto percentual do IVA seja coberto pelos fornecedores.

A tensão entre as maiores cadeias de retalho alimentar e os fornecedores adensou-se com a crise financeira e a estratégia de prometer os produtos mais baratos do mercado a um consumidor com menos poder de compra.

Do lado dos produtores de leite, que vendem para empresas como a Lactogal, a subida do preço do combustível e dos concentrados para animais (à base de milho e soja) trouxeram dificuldades acrescidas. José Campos de Oliveira, presidente da Leicar, diz mesmo que com a actual situação, a margem de lucro é “zero ou negativa”. Apesar da subida dos custos de dez por cento que se verifica desde Julho, “não há qualquer repercussão na venda ao público” e o aumento de 1,5 cêntimos no preço do leite oferecido pela indústria “só cobre uma décima parte” das despesas, continua. “Na carne a situação ainda é mais grave porque ainda não há qualquer repercussão no preço a que é comprada”, adianta.

Para a Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição, é prematuro dizer se vai haver ou não aumento de preços. A associação garantiu que fará de tudo para manter os preços tão baixos quanto possível. Ao mesmo tempo, em Bruxelas, o ministro da Agricultura, António Serrano, admitiu que a subida dos preços de alimentos como leite, pão e carne será inevitável se o dos cereais continuar a subir.

Fonte: Anil

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