Aumento de cereais será tragédia para os Açores

O preço dos cereais continua a subir e o impacto dessa subida poderá constituir-se numa autêntica tragédia para os Açores, uma região extremamente dependente da importação de cereais. E será uma tragédia, porque a constante subida do preço dos cereais vai ter implicações directas nos preços dos alimentos, segundo Jorge Rita, presidente da Associação Agrícola de São Miguel.

Para o economista Luís Anselmo, a presente situação tem de ser acompanhada a par e passo pelos Açores, tendo em conta a sua dependência do exterior nesta área e já se antevê novas subidas de preço nos produtos alimentares.

A Comissão Europeia reviu a subida de preços e as previsões são agora dramáticas. O aumento previsto era de 10, mas agora é de 39 por cento. Por todo o mundo já se começa a alertar para a crise alimentar e para a especulação. A subida dos preços dos alimentos está ligada a factores estruturais como o aumento de procura da China e da Índia (países em vias de desenvolvimento), mas também temporais e consequente especulação de mercados. Situação que aumentou a pressão exercida sobre os preços, que dificilmente voltarão aos níveis praticados em 2005. A produção de cereais não acompanhou a crescente procura por parte dos países em vias de desenvolvimento, o preço do petróleo continua a bater recordes, o custo dos alimentos encarece, o risco de inflação na Zona Euro é acrescido e o Banco Central Europeu vê-se impedido de baixar as taxas de juro nesta conjuntura.

A subida de preços dos alimentos é um fenómeno global que a ONU já chamou de tsunami silencioso e atinge também os Açores. E os efeitos em termos de futuro? Para o presidente da Associação Agrícola de São Miguel, a constante subida do preço dos cereais pode gerar uma autêntica tragédia nos Açores. Jorge Rita afirma que o disparar do preço dos cereais tem um impacto extremamente negativo na economia açoriana, sobretudo para o sectores produtivo e alimentar.

“Estamos a falar de dois factores de grande importância, até porque os Açores são uma região extremamente dependente da importação de cereais, quer para a alimentação humana, quer para alimentação animal. Aliás, a própria alimentação animal acaba por ter reflexos na cadeia alimentar humana, porque a subida dos cereais tem acontecido de uma forma muito acentuada. Os países, não só da União Europeia, como de todo o mundo, têm de alterar rapidamente o seu procedimento em relação aos cereais” sustenta Jorge Rita, para quem os cereais devem ser objectivamente para a alimentação humana e só depois para a produção de biocombustíveis.

Segundo o presidente da AASM, esta definição de prioridades é extremamente importante. Como adianta Jorge Rita, “é importante que o mundo crie alternativas ao petróleo, mas também é preciso ver que existem outras opções de produção energética sem ser pelos cereais. Não nos podemos esquecer que os biocombustíveis, por mais importantes que sejam, trazem transtornos imensos à alimentação humana e animal.” Para ele, as regiões mais pobres, como é o caso dos Açores, muitos países africanos e outros vão ter graves problemas no futuro se a situação se mantiver como está actualmente.

“Com a especulação que, em parte, também existe e com o aumento dos cereais, não vejo qual a possibilidade que as pessoas terão em alimentar-se de cereais. Poderemos estar perante uma tragédia não só no que respeita aos Açores, mas também em muitos países. É importante que os países mais ricos da Europa e da América do Norte tenham produções energéticas alternativas ao petróleo, mas não através dos biocombustíveis que têm influência directa na cadeia alimentar humana”, acrescentou.

Jorge Rita é peremptório: “a subida do preço dos cereais pode ser boa por alguns agricultores, mas para os Açores, em concreto, não é. Não nos podemos esquecer que os Açores são uma região totalmente dependente da importação de cereais e que o principal sector económico regional também depende quase inteiramente desse bem. Será uma tragédia para os Açores. Será uma tragédia para os produtores de carne, será uma tragédia para a alimentação humana.”

Aliás, Jorge Rita entende que os Açores devem ficar preocupados com o actual cenário mundial no que respeita à subida do preço dos cereais.”Os Açores têm razões mais do que suficientes para estarem preocupados. Para além de tudo o que já disse, há uma outra questão inquietante que não pode ser esquecida: a Europa não permite a entrada de cereais geneticamente modificados, mas permite a entrada de animais que são alimentados com esses produtos. Isto é uma autêntica hipocrisia, porque os cereais sobem, não podemos importar alguns cereais geneticamente modificados e, paralelamente consumimos carne de animais que são alimentados com esses produtos. É preciso criar legislação que nos permita importar cereais geneticamente modificados. Talvez assim consigamos atenuar a tragédia que nos espera.”

Os factores que levaram ao aumento dos preços
O economista Luís Anselmo afirma, por seu lado, que a subida do preço dos cereais, que já não acontecia há largos anos, está ligada a vários factores, o primeiro dos quais se prende com um aumento muito forte da procura, nomeadamente por países que estão a desenvolver-se a um ritmo muito acelerado, como a China ou a Índia e que são consideradas as grandes baleias económicas asiáticas. Aumenta a procura dos cereais e não há oferta suficiente para fazer face a esse aumento, o que faz disparar os preços. Por outro lado, houve mesmo uma quebra ao nível da produção de cereais. Além disso, a produção do biocombustível também está a contribuir para isso. Alguns países já estão a usar cereais para produzir biocombustíveis.

Todos esses factores levam a que os preços dos cereais continuem a disparar (não se sabe mesmo quando é que esta subida vai parar) e há grandes empresários agrícolas que estão a tirar partido dessa situação o aumento da procura, oferta limitada e a constante subida dos preços, com as graves consequências que daí advêm sustenta o economista.

Relativamente ao impacto que esta situação poderá ter nos Açores, Luís Anselmo sustenta que serão também visíveis, mas também diz que, pelo menos por enquanto, não há razões para alarme. “Importamos cereais e as consequências da presente crise mundial vão ser visíveis desde a produção de bens alimentares a indústria de panificação, por exemplo até à produção de alimentos para animais. O preço das rações vai subir e isto implica a subida do leite e derivados e da carne. Os efeitos serão importantes para uma economia pequena como é a dos Açores e é natural que os preços subam. Não há motivos para alarme, mas temos que acompanhar a par e passo toda essa situação, cuja solução não é assim muito fácil de se encontrar”, acentuou.

Fonte: Anil

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