“As florestas proporcionam apreciável rentabilidade”

O Estado deve cumprir finalmente todas as promessas de Política Florestal algumas feitas em 96.

Há investidores, portugueses e estrangeiros, interessados na floresta portuguesa, que mais do que debilidades terá grandes potencialidades. A Agência Portuguesa para o Investimento (API) quer ajudar a concretizar essas propostas de negócio e por isso leva a cabo amanhã, em Coimbra, uma conferência internacional sobre esse importante recurso natural. Miguel Cadilhe recorda nesta entrevista o muito que está por fazer – como é o caso do regime fiscal especial – e deposita grande expectativa no debate de amanhã, que será presidido por Jorge Sampaio.

[Jornal de Notícias] O que é, para a API, a floresta portuguesa ?

[Miguel Cadilhe]É, antes de mais, uma excelente oportunidade de investimento, desde que estejam reunidas certas condições que ao Estado cabe fazer cumprir. Oportunidade que a API pode e deve apresentar a investidores nacionais e estrangeiros. Nesse sentido, foi elaborado, há mais de ano e meio, o dossiê especial “Investir nas Florestas Portuguesas” e sobre ele têm-se realizado várias e intensas acções comerciais. A floresta é um bom exemplo de recurso endógeno português adequadamente integrado a jusante, tendo dado origem a uma fileira florestal sólida e muito relevante para a nossa economia. De facto, a cadeia de valor a jusante é uma das raras situações em que empresas portuguesas, criadas e detidas por portugueses, são líderes a nível mundial ou são marcante referência na sua área. No conjunto, estamos a falar de mais de 10% das nossas exportações e de mais de 160 mil postos de trabalho.

Em que medida as florestas podem ser alvo do interesse de agentes económicos, nomeadamente estrangeiros ?

O interesse dos investidores é grande e pode ser bastante maior. As florestas proporcionam, quando bem geridas, uma apreciável rentabilidade. O dossiê especial da API de que falávamos expõe oportunidades de investimento nas florestas portuguesas e, ao mesmo tempo, a API identifica “custos de contexto” que devem ser removidos pelo Estado ou lacunas de regime que devem ser colmatadas pelo Estado, bem como promessas de medidas que estão por cumprir. Por um lado, comprova-se no dossiê o elevado potencial de rentabilidade que as florestas portuguesas podem oferecer aos investidores nacionais e estrangeiros. Por outro lado, a API está convicta de que a grande solução para as florestas portuguesas passa por disseminar a montante formas de racionalidade empresarial já presente nas indústrias a jusante.

Que contactos já se efectuaram ? Em que países e com que investidores?

A API, em Portugal, tem apostado em grandes grupos empresariais, associações de produtores florestais e empresas agrícolas, indústrias a jusante, indústrias com preocupações ambientais em que a floresta possa vir a dar créditos ecológicos, instituições financeiras. No estrangeiro, a API tem-se centrado no espaço ibérico, na perspectiva de explorar as necessidades reveladas pela indústria já instalada, e em países que conciliam tradição florestal e avanços na inovação de produtos financeiros, como fundos, ligados à floresta, bem como no aproveitamento de novas fontes de riqueza a partir da floresta.

Qual é o diagnóstico da API sobre a floresta portuguesa ?

Estamos em vésperas da Conferência Internacional “Investir nas Florestas Portuguesas”. Vai ser um encontro conclusivo. Nada melhor, pois, do que aguardar pelas conclusões e recomendações da conferência para termos um diagnóstico mais actual, preciso e especializado. Aliás, não apenas diagnóstico, também sugestões de medidas, em quatro domínios fundamentais a que correspondem os quatro painéis da conferência – tecnológico; empresarial; canalização de poupanças; riscos (fogos e outros). A conferência visa expressamente o objectivo “Recomendações para Portugal”. Mais promissor não poderia ser. É uma grande responsabilidade para os conferencistas e participantes. E sobretudo para quem organiza a conferência, a Universidade de Coimbra e a API. Vamos ver…

Que caminho deve ser seguido para rentabilizar esta vasta (e desordenada) riqueza natural ?

Além do que já referi sobre a disseminação da racionalidade empresarial, e em correlação com ela, diria gestão profissional; escala das explorações; emparcelamento; especialização; novas tecnologias; novas espécies de maior valor; mercado de aforro ligado à floresta. É um caminho longo. Também longa é a vida da floresta. Também longo e triste é o despovoamento do país agrícola. E diria que o Estado, pessoa de bem, deve realizar as suas obrigações e cumprir finalmente todas as promessas de Política Florestal, algumas estão por cumprir desde a lei-matriz de 1996.

Mas que medidas defende que sejam tomadas, a curto, médio e longo prazo, pelo Governo para tornar rentável o sector das florestas ?

Como acabei de dizer, as principais medidas estão devidamente inventariadas em diversos diplomas legais. Inventariadas mas nem todas cumpridas. Algumas foram sendo realizadas. Outras estão a zero, parte delas há anos. Porquê, não sei dizer, ou sei e não quero dizê-lo. Por exemplo, no domínio dos impostos. Embora reiteradamente prometido, ainda não existe para as florestas um regime fiscal especial, digno desse nome, que realmente atenda às suas especificidades e incentive mudanças estruturais. É claro que o actual Governo está em funções há poucos meses, devemos aguardar com confiança a sua acção nas florestas.

Fonte: JN

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