Pelos menos cinco jovens morreram em Portugal, nos últimos anos, vítimas de anorexia, uma doença silenciosa que é fatal se não for tratada a tempo. O Hospital de Santa Maria, em Lisboa, recebe uma média de quatro novos doentes por semana, não só com anorexia, mas também com bulimia e outras perturbações alimentares. De Janeiro a Novembro deste ano, inscreveram-se para tratamento 43 novos doentes com anorexia. Estão actualmente em tratamento 148 pessoas. Muitos aparecem num estado muito avançado da doença.
A anorexia é uma doença que se caracteriza pela perda de peso, associada a uma progressiva mudança de comportamento. O emagrecimento é lento mas progressivo e, normalmente, tem início com uma dieta.
A falta de alimentação pode acabar por conduzir à morte, tal como aconteceu, mais uma vez, esta semana. A vítima foi a brasileira Rosana Oliveira, de 23 anos, que não resistiu à gravidade da doença, que a afectou durante três anos e a atirou para o coma. Pesava 38 quilos e tinha 1,68 metros de altura.
Esta foi a mais recente vítima conhecida da anorexia, mas na memória de todos está ainda a morte da modelo brasileira Carolina Reston, 24 anos, no dia 14 de Novembro. Tinha 1,72 m e pesava apenas 40 quilos.
Mais de cem novos casos
Os especialistas das consultas de Comportamento Alimentar do Hospital de Santa Maria atenderam, de 1 de Janeiro a 30 de Novembro deste ano, um total de 110 novos doentes. Destes, 43 sofrem de anorexia nervosa, 40 padecem de bulimia nervosa e 18 de perturbação do comportamento alimentar. Os doentes que não comem por depressão, ansiedade, distúrbio de personalidade ou outro motivo são encaminhados para a Psiquiatria.
Abel Santos, um dos dois psicólogos que fazem a triagem dos doentes, diz ao CM que a maioria são raparigas e chegam num “estado muito avançado da doença”. Alguns doentes acabam por não resistir às complicações físicas que surgem, designadamente os rins ou o coração deixam de funcionar. Também há casos de suicídio.
O psicólogo lembra-se de “quatro doentes que morreram” depois de terem abandonado o tratamento no Santa Maria. “Há um ano morreu um jovem, de 24 anos, porque escolheu ser tratado numa unidade de saúde privada. Acabou por piorar e morreu.”
UMA EM CADA 250 RAPARIGAS
Uma em cada 250 raparigas portuguesas, dos dez aos 21 anos, pode sofrer de anorexia, o que significa que, fazendo uma projecção para uma população de 916 mil mulheres dessa faixa etária, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, serão 3664 jovens com a doença silenciosa, segundo estudos feitos pela médica endocrinologista do Hospital de Santa Maria, Isabel do Carmo.
A especialista explica que os estudos foram feitos nas escolas dos distritos de Lisboa, Porto e Setúbal. “Não podemos dizer que todas estas jovens anorécticas existem, porque estes resultados não são projecções nacionais. Haverá escolas com mais ou menos casos.”
SANTA MARIA
O Hospital de Santa Maria, Lisboa, recebe quatro novos doentes com perturbações do comportamento alimentar por semana, apesar de a média ter sido superior em 1999 (sete doentes) e em 2000 (cinco). Daniel Sampaio, responsável pelo Serviço de Psiquiatria, diz serem suficientes as quatro consultas semanais. Os casos súbitos são atendidos no Serviço de Urgência.
SOLTAS
MAIORES 16 ANOS
A Consulta de Comportamento Alimentar do Hospital de Santa Maria atende doentes maiores de 16 anos. Os menores dessa idade são encaminhados para a Pediatria, onde o ambiente é considerado melhor para as crianças e onde dispõem de dois pedopsiquiatras.
56 ANORÉCTICOS
Em 2005, o Hospital de Santa Maria recebeu 118 novos doentes com distúrbios alimentares, além dos 148 doentes que continuaram o tratamento. Dos novos doentes, 56 procuraram assistência clínica devido à anorexia, 36 por bulimia e 18 por outras perturbações alimentares.
MOTIVAÇÃO
Um doente com bulimia nervosa que procura tratamento está mais motivado para a mudança do que um doente com anorexia nervosa. O primeiro objectivo no tratamento é acabar com o ciclo de ingestão compulsiva, seguida de vómitos ou jejum prolongado. Tratamento psicológico e medicação integram a terapêutica necessária para um doente.
INFORMAÇÃO ÚTIL
Informação sobre as doenças do comportamento alimentar, causas, efeitos, tratamentos, sobre alimentação e nutrição, incluindo receitas de cozinha, consta no ‘site’ do Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar, uma sociedade científica.
MAIS UMA JOVEM MORRE NO BRASIL
Uma jovem, de 23 anos, morreu na cidade de Araçatuba, no Interior do estado brasileiro de São Paulo, vítima de paragem cardíaca provocada por anorexia. Rosana de Oliveira pesava 38 quilos. Trata-se da terceira vítima mortal de anorexia no Brasil em apenas duas semanas.
Rosana sofria de anorexia nervosa e já estava em tratamento desde os 21 anos. O seu estado agravou-se em Setembro, tendo sido internada no Hospital da Santa Casa de Araçatuba. Teve duas paragens cárdio-respiratórias e entrou em coma, do qual saiu há cerca de duas semanas, quando o seu quadro clínico registou uma ligeira melhora.
De acordo com a mãe, Rosa Marques, os médicos chegaram a dizer-lhe que o pior já tinha passado, mas uma virose contraída por Rosana, inesperadamente, debilitou-a ainda mais. Uma nova paragem cardíaca deitou tudo a perder, matando-a quando parecia que ela já estava a recuperar.
Com 1,68 m de altura, Rosana pesava ao morrer 38 quilos e ainda se achava gorda. A obsessão por um corpo magro ia além dos conselhos e das críticas de amigos e familiares e das recomendações médicas e tornou-a mais uma vítima da lista de adolescentes e jovens, principalmente do sexo feminino, que morrem em todo o Mundo, mas principalmente no Brasil, onde o culto corporal é uma verdadeira paranóia nacional.
OUTRAS MORTES
Na segunda quinzena de Novembro, duas jovens, Ana Carolina Reston Macan e Carla Sobrado Casalle, morreram pelo mesmo motivo: paragem cárdio-respiratória decorrente de complicações provocadas por anorexia.
Ana Carolina, que era de Jundiaí, a 90 quilómetros de São Paulo, morreu com apenas 20 anos. Modelo profissional, tinha 1,74 m de altura e apenas 40 quilos.
Carla, da cidade de Araraquara, também no Interior do estado de São Paulo, era outra apaixonada pelo mundo da moda e sonhava ser estilista. Tinha igualmente 1,74 m de altura e pesava, ao morrer, aos 21 anos, pouco mais de 50 quilos.
DISTÚRBIOS ALIMENTARES
ANOREXIA NERVOSA
Mais frequente nas jovens adolescentes do sexo feminino. Principais sintomas são a perda de peso e mudança de comportamento. O primeiro passo para tratamento é a pessoa assumir a doença. Tratamento inclui psicoterapia ou medicação antidepressiva. De início, as refeições devem ser leves e seis a oito por dia.
BULIMIA NERVOSA
Afecta sobretudo as raparigas no final da adolescência, início de maturidade. Muito rara no sexo masculino. Caracteriza-se por uma grande voracidade e pela ingestão de enormes quantidades de alimentos num curto espaço de tempo. Para compensar, os doentes provocam vómitos e usam laxantes.
VORACIDADE
Caracteriza-se pela ingestão descontrolada de comida e aumento de peso. Ao contrário da bulimia, as crises de voracidade também afectam os homens. A alimentação é usada como forma de ultrapassar o stress. O excesso de peso serve de ‘escudo’ para
os problemas do quotidiano.
OBESIDADE
Obesidade. Excesso de peso, devido ao aumento do tecido adiposo (gordura) no organismo. A principal origem deve-se aos erros alimentares, em especial a excessiva ingestão de alimentos muito calóricos, como doces e/ou álcool, associada à falta de actividade física. A obesidade aumenta o risco de doenças cardiovasculares e diabetes.
TESTEMUNHOS DE ANOREXIA E BULIMIA
– “O mais irónico no mundo sub-humano da anorexia é que os anos passaram e não avancei em nada nos sonhos e projectos que tinha. É uma paragem no tempo. Alexandra, 29 anos, anoréctica
– “O sentimento de vitória, força, poder e alegria pelo controlo sobre a balança dá lugar ao cansaço, falta de energia e tranquilidade e até frustração e revolta porque de tudo que se idealizou nada se concretizou.” Idem
– “Tinha 17 anos quando comecei a ter ataques de fome, uma fome tão grande que por mais que comesse nada me satisfazia. O dinheiro que a minha mãe me dava não chegava e tinha de pedir aos amigos.” Joana, 24 anos, bulímica
– “O desespero era tão grande que era capaz de rastejar por dinheiro. Depois, corria para o bar da escola e comia. Como era gordinha, ninguém percebeu e assim cheguei aos 75 kg.” Idem
– “Tinha 14 anos, andava no 9.º ano, e comecei a sentir-me estranha. Na verdade não era gorda, mas queria mudar alguma coisa em mim. Queria sentir-me outra pessoa.” Lídia, 18 anos, anoréctica e bulímica
JUDOCA BULÍMICO
Aos 17 anos, Pedro tinha uma carreira promissora como judoca mas sofria de bulimia. Curou-se com a ajuda dos pais e médicos.
MAIORIA RAPARIGAS
No Hospital de São João, Porto, são seguidos 270 jovens com idades entre os 14 e os 18 anos, sendo a maioria raparigas.
HIPÓTESE DE MORTE
Segundo o psiquiatra António Roma Torres, a hipótese de morte por anorexia ou bulimia é de dez por cento nas adolescentes.
ESPANHA PROÍBE MAGRAS
A organização da Moda Cibeles, em Espanha, proibiu, em Setembro, que manequins com menos de 55 quilos desfilassem.
INTERNADA À FORÇA
INTERNADA À FORÇA
Os pais de uma jovem anoréctica argentina recorreram ao Tribunal e conseguiram interná-la à força num hospital para se curar.
Fonte: Correio da Manhã
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