Há erupção, há menos de dois meses, da Alimentos Lácteos no mercado, não passou despercebida a ninguém no seio do sector.
Aquela sociedade anónima de base cooperativa, que alugou as instalações da antiga fábrica de Outeiro de Rei, da Leche Pascual, tem vindo a gerar uma certa crispação e está ter algum impacto nos preços, tanto no campo como nas prateleiras.
A empresa, formada pelas cooperativas Arzuana, Gancobre, Perpetuo Socorro, Mopán, Tierra Llana, Oriber, O Pereiro, Indega, Codegui e Codeira, está a tentar conseguir um ‘buraco’ no difícil mercado do leite, com práticas que os seus concorrentes qualificam como desleais e que a Alimentos Lácteso define como simples “estratégias” para tentar conquistar uma carteira de clientes.
Para poder comercializar os 500 mil litros de leite que recolhe diariamente – mais, inclusivamente, que a Feiraco que, nesta altura recolherá 400 mil litros/dia – foi cativar a distribuição, oferecendo-lhe o leite a entre dois e três cêntimos menos que as restantes indústrias. Com estas propostas chegou à Andaluzia e a Portugal, com a sua segunda marca Muu. E, como era de esperar, as cadeias de distribuição acederam ao desafio, abrindo as hostilidades.
A guerra está, pois, a ser servida, tanto no campo como na distribuição. Na recolha, o desembarque da Alimentos Lácteos no mercado prejudicou especialmente a Celta, que deixou de receber o leite de duas cooperativas. Na distribuição, as ofertas da Alimentos Lácteos para captar clientes obrigou o resto das indústrias a reaccionar para não perder quota de mercado. O resultado pode ser apreciado nos lineares dos supermercados, se bem que a política de descida de preços, primeiras marcas incluídas, já tenha começado muito antes da chegada da nova empresa.
Empresa admite que atrasou a implementação dos seus princípios
Roberto Casas, responsável da Alimentos Lácteos, insiste que a entrada da empresa no mercado não se traduziu numa descida de preços. De facto, considera mesmo que os preços do leite no campo se mantiveram – em torno dos 28 cêntimos – muito por influência da sua empresa e indica que espera poder mesmo subi-los até ao final do ano. “Estamos a pagar menos do que o que gostaríamos”, indica, “mas tal deve-se a estarmos a fazer um grande esforço para entrar no mercado”. “Uma vez superada esta fase”, acrescenta, “recuperaremos os nossos princípios filosóficos”.
Esses princípios, estabelecidos quando a Alimentos Lácteos foi criada e agora temporalmente ‘guardados’ pasma por pagar aos produtores membros das cooperativas preços superiores aos respectivos custos de produção, para “dignificar” o sector. Roberto Casas declarou em repetidas ocasiões que o objectivo último não é o lucro industrial, mas sim conseguir a rentabilidade suficiente para que a unidade industrial se mantenha em funcionamento.
Acusações de «política rasteira» e de atrasar pagamentos aos fornecedores
Que primeiro reagiu à situação criada com a cegada da Alimentos Lácteos foi Jesús Lence, da Leite Rio, empresa que recolhe cerca de um milhão de litros de leite por dia na Galiza. Lence acusou a empresa de Outeiro de Rei de praticar uma “política rasteira e sem futuro” e de atrasar os pagamentos aos seus fornecedores. De acordo com aquele empresário, algumas cooperativas não foram capazes de realizar os pagamentos do leite entregue em Abril até este semana.
Jesús Lence insiste, aliás, que o leite está a ser pago no campo a 23 cêntimos, valor muito inferior ao referenciado por Roberto Casas. Por seu lado, Pedro Ramos, coordenador da Associação de Indústrias Lácteas da Galiza, admite que existe alguma preocupação no sector. “O que está a suceder”, argumenta, “é evidente: há um novo operador no mercado, com um volume importante de leite desde o seu arranque, cuja actuação está a supor que os preços evoluam em baixa, como consequência das ofertas espectaculares e alarmantes que estão a apresentar”.
Fonte: Anil
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