Agricultores algarvios estão a substituir os laranjais por alfarrobeiras, acreditando que a semente daquele fruto mediterrânico assegurará ao Sul do país um futuro agrícola mais competitivo e sustentável.
É um movimento gradual, mas regista-se um pouco por toda a região, excepto na zona montanhosa onde também não há citrinos, contou à Agência Lusa José Filipe, da Associação Interprofissional para o Desenvolvimento de Produção e Valorização da Alfarroba (AIDA).
A alfarrobeira é uma árvore de grande porte que necessita de menos água, menos cuidados intensivos, garante preços sustentáveis e afasta os incêndios das redondezas, pois tem sempre agricultores por perto dos pomares a tomar conta das alfarrobas, explica Manuel Caetano, especialista nesta espécie de sequeiro.
Manuel Caetano, conhecido na indústria mundial alfarrobeira por “Mister Alfarroba”, é director da Danisco (antiga Indal), que há cerca de um ano se converteu numa multinacional de transformação de sementes de alfarroba, com sucursal em Faro e sede na Dinamarca e que exporta todo a sua produção para a Europa, China, Japão e EUA.
Ao contrário das laranjeiras, que necessitam de muita água, as alfarrobeiras conseguem viver saudavelmente com 250 mililitros de água por ano e mesmo em períodos de seca severa ou extrema mantêm ou até aumentam a produção.
Este ano, a produção subiu de 35 mil toneladas para quase 40 mil toneladas.
A alfarroba, também designada por “chocolate saudável” por ter um baixo teor de gordura, é igualmente mais lucrativa: um quilo vale no mercado 120 escudos (60 cêntimos) e um de laranja está a 40 escudos (20 cêntimos), referiu o “Mister Alfarroba”.
No Algarve há apenas duas fábricas de transformação da semente de alfarroba, a Danisco e a Victus Industrial Farense, e quase toda a sua produção é para exportação.
A semente de alfarroba é utilizada em várias indústrias, como a farmacêutica (para dar forma a alguns comprimidos), a cosmética (quanto mais os cremes forem hidratantes, mais goma da semente de alfarroba têm, o chamado E410, que absorve a água), a alimentar (como aditivos para pudins, papas de bebé e estabilizantes de gelados), a têxtil e do papel.
“Portugal fica apenas com cerca de cinco por cento da produção de sementes de alfarroba que é aproveitada para as fábricas dos gelados da Olá e da Nestlé”, adiantou Isaurindo Chorondo, gerente de A Industrial Farense, uma fábrica fundada em 1944 e que numa primeira fase se dedicou exclusivamente ao fabrico de rações para animais.
A polpa da alfarroba – 90 por cento do peso do fruto – é aproveitada para doçaria variada como bolachas e bolos, licores, xarope, pão e alimentação dos animais.
O aproveitamento deste produto tradicional algarvio está a ser valorizado pela própria Direcção Regional de Agricultura do Algarve (DRAAlg), que confirmou à Lusa que o nível de plantação na região está em expansão.
Estima-se que existam hoje 93 mil hectares de alfarrobeiras na região (mais 15 mil que há uma década): 13 mil de pomar ecológico, 15 mil de pomar industrial e 65 mil em pomar misto, ou seja convivendo com outras árvores, nomeadamente amendoeiras, referiu David Mousinho, engenheiro da DRAAlg.
Portugal é o terceiro produtor mundial de alfarroba – os primeiros são os espanhóis e os terceiros os marroquinos – mas o aumento de produção nos últimos dez anos pode levar o Algarve a conquistar uma agricultura sustentável e transformar o País no segundo produtor de alfarroba do mundo.
Com os apoios europeus, nomeadamente através de subsídios e do “Projecto aos frutos de casca rija e alfarroba”, a produção pode aumentar, defende Manuel Caetano.
Fonte: Agroportal
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