Ministros da agricultura de 26 países, incluindo Portugal, reunidos ontem, em Berlim, concluíram que a segurança alimentar “é um desafio global para os governos e indústria” e alertaram que “são necessários conceitos inteligentes” para o suplantar.
“No fundo, trata-se de transferirmos tecnologias e de investirmos em infra-estruturas nos países com mais dificuldades, de abrir os mercados e de não esmagarmos estes países com produtos agrícolas subsidiados”, disse à Lusa no final dos trabalhos o ministro português da Agricultura, Desenvolvimento Rural e das Pescas, Jaime Silva.
Sem fugir às regras do mercado, “é preciso criar mecanismos de boa governação que evitem situações dramáticas”, adiantou ainda o político português.
Dando o exemplo de África, Jaime Silva referiu que muitos países deste continente, onde se registam as situações mais dramáticas de fome e subnutrição, “não conhecem a economia de mercado, nem a globalização, e tem de ter outro tipo de ajudas, caso contrário, estarão sempre à mercê das catástrofes naturais ou da subida dos preços das matérias-primas”.
A ajuda a conceder poderia traduzir-se nomeadamente, na venda aos países africanos de sementes mais baratas, ou na disponibilização de infra-estruturas para armazenar água, acrescentou.
“Temos andados sempre atrás das crises, mas chegou o momento de nos anteciparmos a elas”, sublinhou Jaime Silva.
Neste contexto, destacou a importância de medidas como a que foi adoptada na União Europeia no princípio do ano, e implementada já em Portugal, permitindo a entrada de produtos africanos sem taxas alfandegárias.
Trata-se de uma campanha intitulada “Tudo menos Armas”, para facultar a venda de artigos de países pobres sem encargos onerosos para estes na Europa comunitária.
Portugal, por exemplo, está a comprar safra de açúcar a Moçambique graças a este expediente.
Além disso, na Conferência de Doares do Programa Alimentar Mundial das nações Unidas FAO, a realizar a 26 e 27 de Janeiro, em Madrid, o governo português irá divulgar o seu contributo para o combate à fome e à subnutrição no mundo, e tentar cumprir o objectivo proclamado pela ONU na Declaração do Milénio de reduzir estes flagelos a metade até 2015.
A reorganização da FAO, que Jaime Silva disse ter “assistido impávida” ao agravamento destes problemas, “durante estes anos todos”, é também, no entanto, uma das metas definidas pelos ministros que participaram na 1.ª Cimeira de Ministros da Agricultura de Berlim.
Na conferência, que a ministra alemã da tutela, Ilse Aigner, pretende transformar num evento regular de projecção internacional, uma espécie de Davos para a agricultura, participaram também, nomeadamente, os titulares das pastas do Brasil, China, Rússia e Ucrânia.
A declaração final proclama a urgência de “aumentar a produção agrícola” para combater a fome no mundo, e advoga o apoio dos camponeses com pequenos empréstimos, por exemplo.
“Paradoxalmente, a fome concentra-se nas regiões rurais, o que provoca a fuga destas zonas, e por sua vez faz escassear a mão-de-obra agrícola”, disse a ministra alemã Ilse Aigner.
Os ministros defendem ainda o acesso dos agricultores ao conhecimento, à técnica e a recursos como a água e os solos, sublinhando que estes também podem ser aproveitados para a produção de energia, “mas alimentar as pessoas é o objectivo primordial da produção agrária”.
Na declaração ministerial exige-se ainda a redução das distorções à concorrência, e o ministro da agricultura do Burkina Faso, Laurent Sedego, aproveitou para criticar os novos subsídios à exportação de leite aprovados pela União Europeia.
“Os apoios à exportação de produtos agrícolas impedem que os países africanos sejam competitivos, e matam a nossa agricultura”, advertiu o ministro. Em resposta, a ministra alemã alegou que a UE “apenas subsidia os seus produtos para que os respectivos preços fiquem ao nível do que se pratica no mercado mundial”.
O número de pessoas vítimas que passam fome subiu no ano passado para 960 milhões em todo o planeta, e os peritos receiam que continue a aumentar, devido, nomeadamente, ao aumento acelerado da população mundial, que actualmente ronda os seis mil milhões de pessoas, mas em 2050 deverá atingir os 9,2 mil milhões.
Fonte: Agroportal
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