Quinze anos após a publicação da primeira legislação europeia sobre agricultura biológica, Portugal conta já com cerca de 50 mil consumidores, mas os profissionais do sector reivindicam mais divulgação e apoios para “acabar com os mitos”.
Rejeitando o uso de fertilizantes e pesticidas de síntese química, os produtores da agricultura biológica procuram estabilizar a humidade do solo e torná-lo uma reserva nutritiva através da rotação de culturas, controlo biológico de pragas e adição de detritos orgânicos ou minerais triturados.
O resultado é uma grande variedade de alimentos mais saborosos, saudáveis, seguros e melhor controlados, garante Ângelo Rocha, representante dos comerciantes na Associação Interprofissional para a Agricultura Biológica (Interbio).
“Os legumes e frutas ‘bio’ têm mais 20 por cento de matéria seca do que os convencionais, pelo que concentram mais nutrientes e têm um sabor mais intenso”, explicou à Lusa, considerando estas vantagens são suficientes para compensar a diferença do preço.
Apesar do “aumento da procura”, o custo dos alimentos biológicos é ainda superior aos dos alimentos comuns, mas em alguns casos, como o leite ou a manteiga, a diferença deve-se à necessidade de importação.
A Interbio defende por isso o incentivo à produção nacional, e sustenta que a agricultura biológica é uma actividade económica compatível com as exigências de protecção do ambiente.
“É preciso mudar as políticas, porque os apoios dados aos produtores não têm surtido efeitos”, disse Ângelo Rocha, referindo-se às leis agro-ambientais definidas pelo Ministério da Agricultura.
“Falta também dirigir apoios para a divulgação, até agora feita por cooperativas e consumidores, para acabar com os mitos que associam este tipo de alimentação a comida para doentes, ricos ou fundamentalistas”, acrescentou.
No entanto, o conceito “bio” está hoje presente em sectores como os de cosméticos e detergentes, fabricados apenas com produtos naturais, e a pecuária, onde o uso de antibióticos e reguladores de crescimento é proibido.
Entre 2002 e 2005, a produção vegetal quase triplicou e o número de animais criados sob o sistema biológico quadruplicou, movimentando um total de dois mil operadores no ano passado, segundo dados do ministério.
Além do crescimento do mercado, Ângelo Rocha apontou outras vantagens do negócio: os produtores não estão em contacto com químicos prejudiciais para a saúde e não têm de se preocupar com o tamanho ou forma “ideais” dos alimentos, porque a garantia de controlo é “suficiente” para os consumidores.
É precisamente a confiança na certificação de qualidade dos produtos “bio” que motiva Sofia Pinto, 25 anos. “Sei que os rótulos contêm informação correcta, sem tirar nem pôr”, afirma esta antiga vegetariana, que passou a integrar carne na sua dieta quando descobriu estes produtos “mais consistentes e realmente saborosos”.
Ezequiel Henriques, 56 anos, diz que costuma ir a “restaurantes comuns”, mas em casa cozinha “bio”. “Procuro produtos biológicos porque me preocupo com a minha saúde. São mais caros, mas acaba sempre por compensar porque poupo na farmácia e nos médicos”, explica.
Segundo informação disponibilizada pela Interbio, o sector da agricultura biológica conheceu “um crescimento espectacular nos últimos 15 anos”, constituindo uma “aposta estratégica da União Europeia e de Portugal”.
Lisboa, Porto, Évora e Alpiarça, em Santarém, são alguns dos concelhos onde existem já mercados ou feiras exclusivamente dedicados à agricultura e pecuária biológicas.
Fonte: Lusa
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