Cada vez que o consumidor paga 1,40 euros por um quilo de pêra rocha, apenas 40 cêntimos vão para o agricultor que o produziu.
O alerta foi dado ontem pelo Observatório dos Mercados Agrícolas e das Importações Agro-alimentares, que diz existir em Portugal um grande desequilíbrio na formação dos preços nas frutas e legumes.
Segundo os dados do Observatório – que se referem a 2005 embora a situação se mantenha em 2007 -, mais de 70 por cento do dinheiro que é pago pelos consumidores pelas frutas e os legumes fica no sistema de distribuição. O produtor recebe à volta de 30 por cento. O estudo incidiu sobre a pêra rocha, a maçã Golden Delicious, a cenoura e a couve-flor, que servem de amostra para o resto do sector hortofrutícola.
Esta tendência, refere Maria Antónia Figueiredo, presidente do Observatório, arrasta-se pelo menos desde o ano 2000 e nada indica que, num futuro próximo, venha a alterar-se.
A concentração da procura devido à presença de fortes grupos no sector da distribuição e a dispersão da oferta, com os produtores pouco organizados, explicam parte desta discrepância dada a fraca capacidade de negociação por parte dos agricultores. Mas há também uma fatia do dinheiro que serve para pagar todo o valor acrescentado que hoje têm os produtos alimentares (ver texto ao lado).
Para Antónia Figueiredo “há uma desproporção entre o que o produtor recebe e o que o consumidor paga”. Porquê? “As grandes superfícies estão cada vez mais concentradas, o que faz com que tenham um grande peso e o produtor não tem condições para ser mais reivindicativo.”
“Há uma grande falta de organização entre os agricultores, pois apenas sete a oito por cento do que é comercializado é feito através de organizações de produtores”, explica António Augusto, vice-presidente da Federação Nacional das Organizações Produtores de Frutas e Hortaliça (FNOP). “Os mercados estão mais exigentes e o agricultor individual, muitas vezes envelhecido, não tem manobra negocial, tem de vender logo porque não tem capacidade de armazenamento”, exemplifica este dirigente que é também produtor de maçã.
Luís Vieira e Silva, presidente da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição, nega que as grandes superfícies tenham nestes produtos grandes margens. “São modestas.” Para este responsável, são os intermediários que ficam com as maiores margens, ou seja, “os grossistas e as organizações de produtores”.
“As organizações de produtores são os próprios agricultores, o dinheiro é redistribuído”, contrapõe António Augusto. Mas o preço é de facto mais elevado nas organizações de produtores (OP). Mas, mesmo assim, ainda fica longe do que o consumidor paga, sublinha Maria Antónia Figueiredo: “No caso da pêra rocha, por exemplo, se a distribuição comprar a uma OP, fica com 55 por cento do preço final, se comprar directamente
Fonte: Público
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