Países africanos como o Quénia, a Somália, a Etiópia, a Eritreia, a Tanzânia, o Burundi e o Níger estão a enfrentar uma grave seca que ameaça de fome milhões de pessoas. Na África sub-sariana, 42,6 milhões de pessoas vão precisar de ajuda este ano, segundo a mais recente estimativa do Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas. A crise pode tornar-se numa “catástrofe humanitária”, avisam as organizações internacionais.
Ao todo são 27 países da África sub-sariana que precisam de assistência, avança a FAO, fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação.
Os efeitos mais desastrosos da falta de chuva nas últimas estações estão a fazer-se sentir no Quénia, a maior economia do oriente de África, onde dezenas de pessoas, em particular crianças, e de animais têm morrido por falta de comida.
Pelo menos 3,5 milhões de vidas estão em risco, um número que subiu nas últimas semanas, segundo as previsões Governo queniano. É que 37 dos 74 distritos do país foram atingidos pela seca. O Quénia precisaria de 263 milhões de dólares (cerca de 217 milhões de euros) para distribuir alimentos à população.
Até agora, a tentativa feita pelo Presidente do Quénia, Mwai Kibaki, para levar comida à população carenciada tem falhado por falta de estruturas eficientes.
Também a Oeste
Várias organizações internacionais humanitárias juntaram a sua voz ao apelo do Governo queniano, que já classificou a fome como um “desastre nacional”. “Comunidades inteiras podem ser varridas, já que dependem totalmente do gado”, avisa a Cruz Vermelha.
Uma das maneiras tradicionais que a população usa para fugir à fome é emigrar em massa para regiões onde ainda possa haver água e pasto. É por esta razão que mais de três mil quenianos do distrito de Pokot estão a caminho em direcção à fronteira com o Uganda, levando consigo 20.000 cabeças de gado.
Na Etiópia, perto de dez milhões de pessoas vão precisar de ajuda alimentar em 2006, mais um milhão do que em 2005. Nas contas das agências internacionais e do Governo etíope, seriam indispensáveis 166 milhões de dólares (cerca de 137 milhões de euros) para responder às necessidades de ajuda de emergência.
A fome também já será uma realidade para dois milhões de pessoas na Somália e para 150.000 no Djibuti, segundo as Nações Unidas. No caso da Somália, o país deverá ter a pior colheita de cereais dos últimos dez anos.
Entre os países situados a Ocidente do continente também devastados pela seca, já no ano passado, está o Níger, onde a fome afecta três milhões de pessoas. A guerra e a seca também serão responsáveis por carências graves em seis milhões de pessoas no Sudão.
No Burundi, no norte do país, as autoridades reconheceram no final da semana passada que já morreram pelo menos 157 pessoas de fome de um total de 1,8 milhões de vidas em risco.
A falta de chuva dos últimos meses aniquilou as colheitas de muitos países africanos, a principal fonte para a alimentação de populações, quase totalmente dependentes da agricultura e do gado.
Factores humanos
“A situação de emergência que actualmente enfrentamos no corno de África é o resultado de sucessivas estações com chuvas fracas”, afirma Arthur Holdbrook, o director regional do PAM para África Central e Oriental. Como consequência, acrescenta, “os pastores que vivem nestas terras áridas e remotas dispõem de poucas estratégias de sobrevivência e impõem desesperadamente a nossa assistência até às próximas chuvas”.
Há duas semanas, a região mais a sul do continente africano foi abençoada com chuva, mas ainda é cedo para saber qual o impacto nas colheitas de 2006, segundo um porta-voz do PAM, Mike Huggins.
Além da seca, outros países têm as colheitas afectadas por uma peste agrícola. “De um milhão de hectares de milho plantado no Malawi, parece que as lagartas das pastagens afectaram cerca de 20.000 hectares”, estima uma organização não governamental, citada pela Reuters.
A ocorrência de secas pode tornar-se constante devido às alterações climáticas causadas pelo aquecimento do planeta. “Globalmente, as temperaturas estão a subir e os ciclos de seca são mais frequentes”, explicou à Reuters o professor da faculdade de Agricultura da Universidade de Nairobi (Quénia), Levi Akundabweni.
Nem só a mãe natureza é implacável para o continente mais pobre do mundo. A propagação da sida, a erosão do solo causada por uma agricultura desadequada, e os conflitos têm convergido para gerar fome num território que tem áreas com solo fértil. África falhou também parte da “revolução verde”, o esforço global para aumentar o cultivo de trigo, arroz e milho. Só o milho parece ter mais sucesso, embora não seja muito resistente à seca.
Fonte: Publico
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