A ‘salvação’ do sector está no leite em pó

Quebra no consumo e crescimento das importações criam excedentes e pressionam a actividade da fileira. Em Portugal e na Europa o sector dos lacticínios está a aumentar a produção de leite em pó. O diagnóstico, partilhado pela ANIL e FENALAC é confirmado pelo INE.

Em Janeiro último, a produção total de leite e produtos lácteos em Portugal caiu 13 por cento, mas o leite em pó registou um crescimento de 53 por cento face ao mesmo mês de 2008. “Nunca se fez tanto leite em pó em Portugal”, afirma Pedro Pimentel, secretário-geral da ANIL.

“A 8 de abril, os stocks de leite em pó entregues pelos Estados-membros para intervenção comunitária já atingiam as 97 mil toneladas, muito perto do limite das 109 mil toneladas”, refere Fernando cardos, da FENALAC.

E os preços ressentem-se desta viragem da indústria de lacticínios para o leite em pó, reflectindo uma queda anual de 50 por cento que não pode ser apenas justificada pelo aumento sem precedentes registado no final de 2007, na sequência da crise do petróleo. “Há dois anos, a tonelada de leite e, pó na Europa, referencia para Portugal, rondava os 4200 euros, contra os 1800 euros actuais”, salienta a ANIL.

Mas, então, o que leva a industria a inundar o mercado de leite em pó? As duas estruturas associativas apontam na mesma direcção: excedentes de produção devido à quebra no consumo de leite e aumento das importações das marcas brancas das superfícies comerciais.

Ainda sem dados actuais sobre o valor das importações de leite, ANIL e FENALAC dizem que a tendência é visível ao nível dos contratos de fornecimento com empresas nacionais.

Com a queda no consumo de leite estimada em 1 por cento, o peso das marcas brancas aumentou 8 por cento “e houve transferência de fornecedores nacionais para outros países, como a Alemanha e Polónia”, garante Pedro Pimentel. Na prática, quatro em cada 10 litros de leite consumidos são de marcas brancas e parte significativa destas pode vir a do exterior, de países onde a escala de produção permite preços competitivos face à “oferta do mercado nacional, “ completamente esmagada e em ruptura” de acordo com associações e cooperativas de produtores.

É neste quadro que a ANIL e FENALAC avaliam os excedentes de leite no mercado em 120 milhões de litros, numa altura em que a campanha leiteira nacional ainda não atingiu o pico da produção. As duas estruturas coincidem, também nas críticas à decisão, no âmbito da Política Agrícola Comum, de aumento gradual das quotas de produção em 5 por cento até 2013, tendo em vista a sua extinção em 2015.

Quanto ao leite em pó, com um custo energético que pode atingir os 70 cêntimos/quilo, dizem ser “a única alternativa” para evitar a destruição do leite por ter um período de validade alargado e um leque de aplicações variadas, dos cosméticos às bolachas e às rações.

A Lactogal, líder ibérica no sector dos lacticínios, está, também, a secar leite. A empresa diz que esta medida surge “enquadrada no programa de intervenção da União Europeia” salientando que quase todos os operadores europeus” estão a seguir a mesma opção.

Evitando comentar o desvio da distribuição para o mercado externo, a empresa refere que “se existem importações de leite ou de queijo, constituem motivo de perplexidade”. “Somos competitivos”, garante a Lactogal, salientando que em Espanha o preço por litro das suas marcas comerciais é, até, “inferior ao praticado pelas marcas brancas daquele país”.

Queijo nacional está a perder competitividade
A empresa de Lacticínios das Marinhas, em Esposende, acaba de ver cancelado o contrato de fornecimento de queijo ao grupo Sonae. A Halos, em Lousada, reduziu em 50 por cento a sua produção de queijos, agora nas 590 toneladas/ano, e está a para um dia por semana, desviando a força laboral para outros segmentos de um negócio com extensões ao vinho e à floresta.

A necessidade de adaptação às novas condições de mercado que as duas empresas enfrentam por razões diferentes é partilhada por outras unidades do sector, confrontadas com a quebra de 5 por cento no consumo de queijo e a concorrência crescente de marcas brancas “a preços incomportáveis”. Ao todo, serão 15 as queijarias que estão a para dois ou três dias por semana devido às dificuldades do mercado, indica a ANIL, enquanto os números do INE mostram uma quebra de 14,3 por cento na produção de queijo em Janeiro, face ao mesmo mês de 2008.

A situação que afecta mais de 500 trabalhadores, em especial na zona da Beira Interior, penaliza directamente um dos segmentos da fileira com mais potencial para ser trabalhado, uma vez que o consumo nacional per capita está nos 11 quilos/ano, contra os 22 quilos da média europeia. Mas tem outras implicações num período de excedentes de produção, uma vez que este é o produto com mais peso na importação de lacticínios e também, grande consumidor de leite: Um quilo de queijo exige 10 litros de leite.

Fonte: Anil

Veja também

Consumo de café aumenta resposta ao tratamento da hepatite C

Os pacientes com hepatite C avançada e com doença hepática crónica que receberam interferão peguilado …