São quase das dez da noite. O ecrã de televisão, no alto da parede, aguarda pela hora das legendas do karaoke. Nas mesas ainda não se canta, mas o convívio e o álcool já enchem de risos a sala com cheiro a crepes. Uma mistura de ingredientes que levou Pedro a escolher este restaurante chinês para celebrar o seu 29.º aniversário. E contrariar a tendência que, um mês depois da inspecção da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), tem afastado os clientes de outros restaurantes. Mesmo assim, há quem vá… e se recuse a comer.
Pedro só soube da megainspecção que levou ao encerramento de 14 restaurantes chineses – por falta de condições de higiene – quando telefonou aos amigos a informá-los do local da festa. Todos brincaram com a situação, mas os 16 agora à mesa mostram que nenhum faltou por causa disso. “Para ter havido a operação, é porque tinham fundamentos. Mas preocupa-me tanto a falta de higiene nestes restaurantes como nos outros”, justifica. “Infelizmente, é uma questão de sorte.”
Mas houve quem quisesse evitar o azar. Entre gargalhadas, Cláudia e outro Pedro, amigos do aniversariante, fazem questão de explicar os pratos voltados ao contrário: “Não viemos ao jantar, viemos ao aniversário.” Já tinham “ouvido histórias” sobre a alegada falta de condições nalguns estabelecimentos de comida chinesa. Depois das notícias sobre a acção da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), decidiram não comer mais. “Talvez daqui a uns anos, se a gente se esquecer”, diz Cláudia. “Ou se uma nova inspecção provar o contrário”, arrisca Pedro.
Mas se brincam com o “risco de comer primos dos seus gatos”, reconhecem, em tom mais sério, que a mediatização acabou por ter “um efeito psicológico” perverso. “Se tivessem feito a restaurantes portugueses, se calhar fechavam metade…”
A ideia da falta de condições nalguns restaurantes também “não agrada nada” a Susana, 26 anos. Mas, olhando para o seu o chau min de legumes, só tem uma solução: “Não quero pensar nisso.”
Atarefada a servir as mesas de dois jantares de grupo, Cristina, a empregada chinesa, de 20 anos, é parca nos comentários. Há quatro anos em Portugal, soube da operação “Oriente”, mas acredita que não afectou o negócio do restaurante da família, que prefere não identificar. “Temos mais gente é ao fim-de-semana e isso é como dantes”, justifica. Mas são a excepção.
Wen Zhou
Sexta-feira, 22.45. Entre um caril de gambas e um chop suey de lulas, Zhan Dong Pei tem sempre tempo para uma palavra amiga aos clientes fiéis. Aqueles que “há muitos anos” ali fazem serão e, ao contrário de muitos outros, não se deixaram assustar pelo resultado da inspecção.
Aos 31 anos, Pei trabalha há 15 para os pais e é hoje “o homem da família”. Todos os dias é ela quem carrega os sacos com as compras do mercado. Entra às 10.00 e sai… quando calha. Folgas? “De vez em quando tiro meio dia.” Férias? Há três anos que não sabe o que é. “Eu sou pequenina mas tenho muita força”, justifica, com o seu sorriso contagiante.
A segunda mais velha de cinco irmãs, é ela quem gere os dois restaurantes da família. Por ser a única que domina a língua. Mesmo que no seu português o passado se conte sem pretérito…
Da China, os Zhan trouxeram o nome da cidade onde viviam – Wen Zhou – e colaram-no no letreiro que identifica o restaurante da António Pereira Carrilho, em Lisboa. “Antes [da inspecção] tinha muita gente, agora nota-se que está mais vazio.” E só não se nota mais porque há a legião de habitués que “conhecem bem a casa” e sabem que é “tudo limpinho, tudo fresquinho”. Os mesmos clientes que não recearam que a galinha com amêndoas pudesse ter gripe das aves: “Então íamos importar frangos da China?! Aí é que haviam de chegar frescos…”, ironiza.
O pai de Pei veio sozinho para Portugal em 1983, para ajudar um primo, que já cá estava. Um ano depois, “porque precisava de mais gente para trabalhar”, mandou vir a mulher e as duas filhas mais velhas: Qing e Pei, na altura com apenas nove anos. “Foram tempos muito difíceis”, recorda. Acordavam todos os dias às cinco da manhã e, “mesmo sem comer”, iam “vender nas feiras”. “Já escuro”, regressavam ao pequeno quarto onde moravam os quatro.
Hoje, o negócio cresceu e a família Zhan já tem “uma casa grande”. Ocupam três andares do mesmo prédio, porque quiseram ficar juntos.
Pela família e pela necessidade de ajudar os pais no restaurante, Pei largou os estudos no 7.º ano, colocou na gaveta os desenhos de roupa e o sonho de ser estilista e redesistiu de pausas no trabalho. Talvez por histórias como a sua a comunidade chinesa tenha ficado tão “triste” com o impacto da mediatização resultante da inspecção da ASAE. Pode haver casos em que há falta de higiene, mas o pior é que “há quem pense que isso só acontece nos restaurantes chineses”.
Fonte: Diário de Notícias
Segurança Alimentar Desde 2004 a tratar da Segurança Alimentar em Portugal